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8 de abr. de 2014

Comendo Escondido


Estou acompanhando e adorando esse novo PROGRAMA do canal Discovery Home and Health.


            

Para quem não conhece, o programa se propõe a acompanhar pessoas que não conseguem entender porque estão acima do peso. Alguns participantes acreditam que comem bastante, mas não a quantidade que justificaria o grande aumento de peso. Mas a maioria dos participantes é capaz de jurar "de pés juntos" que pratica uma alimentação extremamente saudável.

Por 5 dias, a equipe do programa se propõe a acompanhar os participantes, utilizando câmeras de vídeo instaladas em suas casas e "detetives" que os acompanham durante a sua rotina do dia a dia.

Resultado final: os participantes acabam tendo que se dar conta de que comem muito, mas muito a mais do que imaginavam. Encontramos diferenças gritantes de percepção como no caso de um dos participantes que acreditava comer em torno de 2000 calorias por dia quando na verdade comia 5300. Ou mesmo da outra participante que jurava não comer e nem gostar de doces e que foi flagrada devorando 5 barras de chocolates por dia.

Mas o que acontece com essas pessoas? São mentirosos compulsivos?

Não.

A Psicologia demonstra que nossa personalidade é muito maior do que aquilo que conhecemos a nosso respeito e que possuímos a capacidade de esconder de nós mesmos tudo aquilo que julgamos feio, errado e doloroso. E  todos esses "defeitos" acabam na nossa Sombra. 

E é aí onde mora o problema.

Se estamos inconscientes desses nossos lados, como vamos transformá-los? Se eu acho que como corretamente e como pouco como é que vou perder peso?

Impossível.

O primeiro passo para a transformação de qualquer comportamento é a consciência de que ele existe. E nesse sentido esse programa acaba sendo genial pois faz com que os participantes sejam obrigados a encarar a realidade. E por mais doloroso que seja, é somente encarando a verdade que começamos a nos libertar das nossas próprias armadilhas.


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13 de fev. de 2011

“Cisne Negro” e a dissociação da personalidade

Cisne Negro é um dos melhores filmes que já assisti. É daqueles filmes que precisamos assistir com o peito aberto, sem medo de experimentar as sensações que ele nos provoca. Porque ele atinge, e muito.

Entre vários aspectos interessantes da trama, Cisne Negro mostra como acontece o processo que Jung chamou de dissociação da personalidade.

Como já comentei em "Quando os outros incomodam", todos os lados que não aceitamos em nós mesmos ficam na sombra e por estarem reprimidos tendem a aparecer de forma descontrolada, com muita intensidade.

Nina é a personificação da bailarina: meiga, delicada, bonita e passiva. Ela busca obsessivamente a perfeição, mas como ninguém é perfeito a sombra tende a aparecer, por mais que ela tente escondê-la.

A protagonista é uma garota tiranizada pela mãe e pelo diretor do espetáculo, mas não consegue se defender pois dentro da sua personalidade não cabe a mulher agressiva e ativa, cabe apenas a menina meiga.

A jovem passa o filme lutando contra as suas unhas e as marcas que elas deixam nas suas costas, pois não consegue controlar a compulsão por se coçar. Esse sintoma parece ser a única forma da sua agressividade se manifestar mas Nina tenta reprimi-lo, cada vez mais, podando as suas garras com tesouras e lixas de unha.

É assim que acontece o movimento de autorregulação da psique, que busca compensar as nossas atitudes unilaterais. Quanto mais rigidez na consciência, mais descontrole no inconsciente.

Na busca por viver o Cisne Negro ela precisa entrar em contato com a sua sombra e em tudo que lá habita. Porém, por estar tão distante desses lados da sua personalidade acaba sendo tomada por eles. E se perde.

Por não ter familiaridade com a mulher transgressora e agressiva que vive dentro de si, Nina não consegue sair ilesa do flerte que iniciou ao buscar inspiração.

A agressividade que deveria estar sendo utilizada em sua legítima defesa está tão inconsciente que assume vida própria e acaba voltando contra si mesma.

Na luta contra a própria sombra, Nina não reconhece que a outra é ela mesma e que ao matá-la está acabando com a sua própria vida.

Triste, intenso, emocionante, Cisne Negro mostra como é importante buscar a proximidade e a familiaridade com todos os lados da nossa personalidade para não nos tornarmos vítimas daquilo que não aceitamos em nós mesmos.

11 de ago. de 2010

Quando os outros incomodam

Jung chamou de sombra todos os aspectos da nossa personalidade que foram reprimidos.

Tendemos a reprimir os aspectos que nos atrapalham na adaptação ao mundo e também, aquelas características que são moralmente inaceitáveis.

Tudo o que é reprimido e desconhecido na nossa personalidade tende a ser projetado no mundo e projeção vem sempre carregada de muita emoção. Tanto o amor quanto o ódio apontam para aspectos da nossa personalidade que estamos enxergando nos outros.

Por isso, o que nos chama a atenção em outras pessoas é sempre uma boa pista sobre os aspectos que não conhecemos e não aceitamos em nós mesmos.

Assim acontece quando os outros nos incomodam. Como não aceitamos os lados sombrios em nós, não os aceitamos nas outras pessoas. É por isso que Jung sugeria escrevermos um texto sobre as características das pessoas que nos incomodam e, ao terminar, voltar ao início da página intitulando, “Eu sou assim”, dois pontos…

É para ler e reler, muitas e muitas vezes, apesar dos arrepios.

Observe como, apesar de não concordarmos com certos modelos, as pessoas que são coerentes e assumidas tendem a não incomodar. Isso porque incoerência aponta para a sombra, pois é o resultado da luta entre o que somos e o que gostaríamos de ser. A incoerência alheia nos remete à nossa própria batalha entre esconder de nós mesmos e dos outros o que realmente somos e por isso, irrita um pouco (e às vezes muito).

Podemos, então, usar o que nos incomoda ao nosso favor. Quanto mais flagramos e aceitamos os nossos lados que não consideramos tão nobres, mais os aceitamos nos outros.Assim, nos tornamos mais humanos.

Leia também: Dia da Mentira

1 de abr. de 2009

Dia da Mentira


No início da minha carreira passei muito tempo tentando descobrir porque tanta gente tinha horror a terapia.

Para mim, estar com alguém buscando descobrir detalhes sobre mim mesma era a melhor coisa do mundo. Do outro lado, estar com alguém para tentar compreender como aquela pessoa funciona e porque sente e se comporta de determinada forma, não podia ser uma tarefa mais interessante. Não entendia como alguém podia escolher outra profissão.

Com o passar dos anos fui compreendendo algumas questões.

Terapia é difícil? É, mas somente para quem não quer saber mais sobre si mesmo. E tem um montão de gente que não quer.

O que observo é a dificuldade que temos em encarar as coisas como elas realmente são. E isso acontece principalmente em relação a nossa própria personalidade. Parece que antes de absorvermos a realidade, possuímos um mecanismo que filtra e distorce as coisas de acordo com os nossos desejos e dificuldades.

Como terapeuta, acompanhei muita gente corando ao sacar mais sobre si mesma. Quem já passou por isso sabe a sensação de vergonha ou horror quando percebemos que somos muito diferentes do que imaginávamos.

Quando descobrimos lados da nossa personaldidade que consideramos nobres é tudo de bom, mas quando encaramos sentimentos e pensamentos que consideramos abomináveis, começamos a corar. É essa reprovação que atrasa muitos processos terapêuticos. Quanto mais reprovação, mais resistência em aceitar esse lado como sendo nosso. Quanto mais resistência, menos diálogo e controle com esse lado desagradável.

Com a realidade não é diferente. Assimilar que as coisas não são como imaginamos é sacar que buscávamos algo diferente do que realmente temos nas mãos. Isso pede tempo e paciência para digerir que nem tudo é como queremos.

O desejo é tão importante na nossa cultura que se faz qualquer negócio para satisfazê-lo, inclusive enganar a si mesmo. Não é à toa que falamos frases como "cair na real" com a conotação de que "a verdade dói".

O que muita gente não percebe é que a verdade pode ser muito mais parceira do que inimiga. Diante de uma situação tal como ela realmente é, podemos nos posicionar e fazer algo a respeito. Enquanto nos enganamos, perdemos tempo e não caminhamos para lugar algum, apenas nos relacionamos com a nossa própria imaginação.

Por isso eu sou à favor do dia da mentira. Assim a gente mente bastante no dia 1° Abril, para não cair na tentação de nos enganarmos no resto do ano!

Flávia Scavone