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1 de jul. de 2013

Conversando sobre Transtornos Alimentares - Portal Rede TV


Na sexta feira dia 28 fui conversar sobre Transtornos Alimentares com Stella Freitas.

Falamos sobre Anorexia Nervosa, Bulimia, Compulsão Alimentar, Complexos Psicológicos, sentimentos e auto conhecimento.



A entrevista pode ser vista em 4 partes.

PARTE 1

PARTE 2

PARTE 3

PARTE 4

19 de out. de 2011

Balão Intragástrico é liberado para quem tem sobrepeso


Agora o procedimento do Balão Intragástrico também poderá ser utilizado por pessoas com sobrepeso, como mostra reportagem de MARIANA PASTORE na Folha de São Paulo de 6/10/11:

"A Allergan chamou a imprensa ontem para anunciar que a vigilância ampliou o acesso ao balão gástrico. Inicialmente indicado para obesos, com IMC (Índice de Massa Corporal) acima de 30, o procedimento já pode ser feito por quem está com sobrepeso e IMC acima de 27.
O cálculo do IMC é feito dividindo o peso (quilos) pelo quadrado da altura (metros).
O balão é colocado por endoscopia e é temporário. O objetivo é aumentar a sensação de saciedade por meio do volume no estômago. "É uma opção menos invasiva e não medicamentosa para pacientes que não querem fazer redução de estômago", explica o médico José Afonso Sallet, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica.
Um estudo com 573 pacientes com sobrepeso, publicado na revista "Obesity Surgery", mostrou que, após seis meses com o balão, os pacientes perdem metade do peso excedente e têm uma uma redução de 5,3 pontos no IMC. Obesos podem perder até 12% do peso inicial, segundo o cirurgião.

TENDÊNCIA

A ampliação da indicação segue a tendência observada nos Estados Unidos.
A FDA (agência reguladora de remédios) passou a permitir, em fevereiro, que pessoas com IMC a partir de 30 e doenças causadas pela obesidade se submetam à colocação de banda gástrica, aparelho que estrangula o estômago. Antes, o IMC mínimo para realizar o procedimento era de 35."

É importante lembrar que, como todo procedimento cirúrgico para o tratamento da obesidade, o balão exige comprometimento do paciente e deve ser encarado como um facilitador para a modificação de um estilo de vida. Assim como nas outras técnicas, o tratamento pode não funcionar se o paciente ingerir alimentos líquidos e muito calóricos como doces e bebidas alcoólicas.

21 de mai. de 2011

A dieta que dá certo x A dieta que dá errado

Ontem, fui entrevistada por pesquisadoras que buscam descobrir como um programa de emagrecimento pode ser mais efetivo e achei que seria legal resumir sobre o que conversamos aqui no blog. Durante nossa conversa, busquei as respostas tanto nos anos de prática como na minha pesquisa sobre o que influencia o sucesso do tratamento após a colocação da banda gástrica.

Vamos lá!

1. Aprendizado

Se você está buscando emagrecer precisa, em primeiro lugar, adquirir conhecimento. Antes de qualquer coisa, deve descobrir o que está fazendo você engordar (o exercício do diário alimentar ajuda muito). Depois, terá que aprender como pode fazer mudanças para uma alimentação saudável e viável. Aprendizado nunca é demais e muitas informações são difíceis de serem absorvidas. Muita gente não sabe, por exemplo, que legumes como cenoura e beterraba, quando cozidos, funcionam como carboidratos, aumentando o índice glicêmico no sangue e obrigando o seu corpo a produzir mais insulina. Ou mesmo que a farinha integral é mais saudável que a refinada, porém, pode engordar da mesma forma se for ingerida em quantidade. Procure um nutricionista, leia, pergunte. Assim fica mais fácil fazer escolhas corretas.

2. Empatia

Sim, você precisa gostar do profissional que está te orientando. Quem gosta da equipe tem melhores resultados. Se não foi com a cara do seu endocrinologista, personal trainer, nutricionista, psicólogo, etc…mude.

3. Motivação

O motivo que te faz buscar o emagrecimento está diretamente relacionado com o sucesso que você terá no tratamento. Está comprovado que quem busca emagrecer porque tomou um susto com um problema de saúde tem mais sucesso do que quem busca emagrecer para ficar mais bonito. Compreender como a gordura afeta o funcionamento do seu organismo e te coloca em risco pode ajudá-lo na mudança de estilo de vida.

4. Estresse

As pessoas que estão buscando emagrecer e que acabam passando por situações estressantes tendem a abandonar o tratamento com mais facilidade. Isso acontece porque comer é uma forma de lidar com sentimentos desconfortáveis. Se você não aprender a suportar desconforto, a buscar outras formas de prazer e a acolher suas emoções terá mais chances de ganhar peso quando a vida trouxer um desafio. Invista nisso.

5. Responsabilidade

Tendemos a culpar fatores externos pelo nosso sofrimento. E, muitas vezes, situações difíceis podem até explicar o comer demais mas não nos fazem mudar. As pessoas que culpam a família, a falta de tempo, a dieta escolhida e o trabalho têm mais probabilidade de ter insucesso no tratamento afinal, mudar o mundo é muito mais difícil do que mudar a nós mesmos. Para ter sucesso na mudança do estilo de vida você precisa querer se transformar. Portanto, mude o seu jeito de pensar: você não é vítima por não poder comer tudo o que quiser. Você pode comer de tudo e pagar o preço de ganhar peso. Se você não quer engordar e por isso, abre mão de alguns prazeres, você está fazendo uma escolha e quando escolhemos, não sofremos tanto assim. Você é livre para viver a vida como quiser!

6. Mudando os conceitos

A maioria das pessoas que quer emagrecer já fez diversas dietas, emagreceu e voltou a engordar. Dentro delas existe um conceito mais ou menos assim: ou eu estou de dieta, fazendo tudo certinho, ou eu estou “apavorando”, comendo tudo o que eu não deveria comer quando estou de dieta (a famosa "jacada"). Como eu sei que já, já estarei em privação, automaticamente começo a estocar alimentos “proibidos”. Se você está de dieta e come um chocolate, entende que estragou o processo e por isso tende a comer tudo o que acha que não deveria até o fim do dia (e isso engorda). Se você busca comer de forma saudável e resolveu comer um chocolate…tudo bem. Tem dias que são mais difíceis, a gente busca um carinho e segue adiante. Não precisa fazer estoque de doce porque “amanhã não vou mais poder comer”.

Portanto, o que dá errado é justamente fazer dieta. O que precisa ser transformado é o conceito porque dieta é algo que tem começo, meio e fim, e um jeito novo de viver bem deve durar para sempre.

29 de mar. de 2011

Cirurgia Bariátrica e Diabetes tipo 2

Segue uma reportagem com boas notícias. Quem está na área, acompanha os benefícios do tratamento cirúrgico em relação ao diabetes tipo 2 há muito tempo, mas ainda faltavam algumas regulamentações para que os pacientes sem obesidade mórbida (IMC<40) pudessem se beneficiar da técnica.



"Nessa segunda feira, dia 28 de março de 2011, durante o II Congresso Mundial de Tratamento do Diabetes tipo 2 em Nova York, um grupo de experts em diabetes e cirurgia bariátrica do IDF (International Diabetes Federation) definiu seu posicionamento em relação ao uso da Cirurgia Bariátrica no tratamento de pessoas com Diabetes tipo 2.


O documento reconhece a associação de diabetes e obesidade como o maior problema de saúde pública da história da humanidade, com uma previsão assustadora de que os 300 milhões de doentes atuais alcancem 450 milhões até 2030. Esses dados revelam a grande ineficiência dos programas de saúde pública mundial na prevenção do diabetes e uma nítida associação do crescimento dos casos de diabetes em relação aos casos de obesidade. Na verdade, as duas doenças caminham juntas.


De acordo com o novo documento, as pessoas com obesidade e diabetes consideradas candidatas à cirurgia de redução do estômago são os pacientes que não alcançarem as metas de controle glicêmico com o uso de medicamentos, especialmente quando há doenças sabidamente associadas à obesidade e ao diabetes. Nesses casos, os pacientes com IMC ≥ 35 tem indicação dita prioritária e aqueles com IMC ≥ 30 passam a ser candidatos ao procedimento. Além disso, a cirurgia bariátrica passou a integrar o protocolo primário de tratamento do diabetes com IMC ≥ 35, ou seja, passou a fazer parte das primeiras opções de tratamento da doença. Os adolescentes com 15 anos ou mais também foram citados no documento e para eles, a cirurgia está indicada em IMC ≥ 40 ou 35 associado à comorbidades.


Em nenhum momento o trabalho citou a cura do diabetes, assim como estamos conscientes que ainda não podemos falar em cura para a obesidade. Mas os resultados são animadores. A melhora dos parâmetros metabólicos do diabetes, possibilitando a redução ou até a suspensão dos medicamentos, ocorre mesmo antes de se conseguir a perda de peso, indicando que a melhora da glicemia decorre do próprio procedimento cirúrgico, além da perda de peso que ele induz. Uma vez que a cirurgia bariátrica é uma intervenção que induz a um quadro de desnutrição programada, os pacientes submetidos a ela devem ter acompanhamento médico e nutricional contínuo, ao longo se suas vidas. Isso se deve ao fato de que, mesmo quando a perda de peso for interrompida, eles continuam absorvendo muito mal alguns micronutrientes e continuam a desnutrir progressivamente.

Logo, ainda não estamos diante da cura da doença. "


fonte: http://comersemculpa.blog.uol.com.br

1 de mar. de 2011

Fome psicológica na RedeTv!

A fome psicológica é a confusão que fazemos entre um desconforto emocional e a fome fisiológica.



Isso acontece pois fome, desconforto, sofrimento, ausência, abandono são temas relacionados em nossa memória, enquanto que conforto, alívio, aconchego e prazer estão associados à comida.


Além disso, as sensações físicas das emoções normalmente aparecem na mesma região do aparelho digestivo: travamos o maxilar quando sentimos raiva, sentimos um nó na garganta quanto estamos triste e um vazio no peito quando estamos insatisfeitos com a nossa própria vida.


Para que uma reeducação alimentar tenha sucesso é muito importante realizar um tratamento que auxilie na discriminação das sensações e no desenvolvimento de habilidades para lidar com elas.


Escrevi mais sobre esse assunto em Emoções e Obesidade

15 de dez. de 2009

Como utilizar o diário alimentar

 

O exercício do diário alimentar é uma ferramenta muito eficaz no tratamento para emagrecer.

Um estudo publicado no "American Journal of Preventive Medicine", demonstrou que os pacientes que possuíam um diário sobre seus hábitos alimentares perderam mais do que o dobro de peso que aqueles que não mantinham os registros: SEGREDO PARA PERDER PESO

Porém, nem sempre esse exercício parece eficaz e isso acontece por causa da forma como o utilizamos.

Deixar para anotar o que comemos no fim do dia, por exemplo, não funciona. O diário é um exercício para criar consciência e capacidade de reflexão sobre o que comemos.

Para criar consciência a anotação deve acontecer no mesmo momento ou logo em seguida da alimentação. Assim, sua atenção estará voltada  completamente para a situação e você se dará conta de como come e do quanto ingere. Normalmente ficamos chocados com o que observamos e nos damos conta do quanto subestimamos a nossa forma de se alimentar. Quando um obeso diz que  não compreende porque engorda, já que não come tanto, ele não está mentindo: a inconsciência faz parte do processo de comer demais e por isso esse exercício é tão valioso.

O próximo passo será desenvolver a habilidade de reflexão sobre o comportamento alimentar. Depois de um tempo anotando podemos passar para o próximo passo: anotar ANTES de comer. Assim, seremos obrigados a separar a quantidade e observá-la antes da ingestão. A maioria das pessoas que come demais refere uma sensação de falta de controle e isso acontece porque a compulsão alimentar faz parte de um padrão automático. Essa fase do exercício auxilia em muito na desconstrução desse habito automático.

Quanto mais consciência, mais auto controle.

Emoções e Obesidade

Quando nascemos uma das primeiras sensações de desconforto que experimentamos é a fome, já que dentro do útero éramos alimentados constantemente através do cordão umbilical e a sensação de fome não existia.

Quando o bebê é alimentado ele experimenta uma sensação de alívio e conforto, não só porque sua fome está sendo saciada, mas porque a amamentação também traz o calor do vínculo com a mãe.

Por isso, tendemos a associar desamparo, dor, solidão e tristeza com a fome e bem estar, prazer, conforto e aconchego com a sensação de estômago cheio. Essas experiências estão relacionadas na nossa memória desde muito cedo.

Discriminar as sensações emocionais das fisiológicas é consequência de um aprendizado, são os adultos que vão ajudando a criança a diferenciar o desconforto que está no corpo daquele que está na alma. Normalmente é a mãe quem começa a traduzir para a criança os seus desconfortos, transformando-os em palavras.

Quando não aprendemos a traduzir nossas emoções, podemos confundir as sensações físicas com as emocionais e qualquer emoção pode ser interpretada como fome.

A compulsão alimentar é um sinal de que estamos comendo no momento errado, tentando lidar com algum desconforto que não vem do estômago. Acabamos comendo demais porque comer desvia a nossa atenção de alguma sensação desagradável. A comida traz um conforto momentâneo, mas como não resolve o problema, precisamos de mais comida para nos distrair do desconforto original.

Portanto, aprender a discriminar sensações corporais das emocionais é o primeiro passo no processo de emagrecimento.

Você já tentou dar nome para as suas sensações? Pare por alguns momentos quando se sentir desconfortável e tente nomear o que sente. Esse é um exercício simples que traz muitos resultados.

O comer demais permanece na nossa vida pois, nos traz consequências positivas. A comida nos acalma pois contém em si componentes químicos que aumentam a sensação de bem estar. Ficar de estômago cheio relaxa já que o corpo precisa de muita energia para realizar a digestão. O prazer proporcionado por alguns alimentos, principalmente aqueles que derretem na boca, também nos ajudam a desfocar de sensações desagradáveis. Por isso, o segundo passo do tratamento para emagrecer é aprender a lidar com nossas sensações. Criar formas de nos confortar sem utilizar a comida é fundamental. Se isso não acontece a restrição alimentar acaba sendo insuportável.

Você já tentou suportar um desconforto? Da próxima vez que se sentir desconfortável, nomeie essa sensação e pare para suportá-la. Tenha coragem de se entregar ao sentimento. Deite na cama ou se recoste na cadeira e apenas sinta o seu corpo: onde a sensação se localiza, como ela se movimenta, com o que ela se parece, te lembra alguma situação? Através desse exercício normalmente aprendemos que entrar em contato com ansiedade, frustração, raiva e agitação não nos destrói, pelo contrário, nos torna mais resistentes.


O desenvolvimento psicológico é essencial no tratamento da Obesidade. Só quando aprendemos a lidar com as nossas emoções podemos deixar de usar a comida para suportar os nossos sentimentos.


Flávia Scavone

7 de dez. de 2009

Em busca do caminho mais fácil

 

O psicanalista belga Jean Pierre Lebrun (ENSINEM OS FILHOS A FALHAR) diz que aprender a lidar com o insucesso é fundamental para livrar-se de apuros na vida adulta e sugere que os pais ensinem os filhos a falhar.

De maneira bem simples, sem grandes e complicadas interpretações psicológicas, Lebrun explica que viver a vida exige suportar momentos de desconforto e que quando não somos treinados para isso, tendemos a buscar formas de aliviar o sofrimento.

Lebrun fala das drogas mas encontramos diversas formas de evitar a realidade quando ela é considerada dolorosa. A compulsão alimentar é apenas mais uma delas.

Ao comer demais a pessoa consegue modificar o foco do conflito para a comida e, a longo prazo, culpar o excesso de peso por todas as suas dificuldades e sofrimentos.

Tanto no consultório como na vida observo como gastamos um montão de energia tentando evitar o desconforto. Estamos sempre a procura do caminho mais fácil. Nesse percurso perdemos muito tempo tentando evitar o inevitável: não há como passar por essa vida sem suportar alguns dissabores.

No processo de emagrecimento, tanto nos tratamentos clínicos como nos cirúrgicos, encontramos casos de sucesso e casos de insucesso. O que diferencia a pessoa que consegue ter sucesso da outra que não? Diversas pesquisas vêm buscando compreender as variáveis relacionadas aos resultados dos tratamentos. A minha pesquisa de mestrado ainda não está terminada mas já consigo observar algumas diferenças entre as pessoas que tiveram ou não sucesso após a Banda Gástrica e essa diferença está na atitude.

As pessoas que tiveram bons resultados compreenderam, de diversas formas, que não existe forma de perder ou manter o peso sem suportar um certo desconforto por não comer tudo o que têm vontade. Elas aprenderam que na vida a gente não tem tudo o que quer, simples assim. As pessoas com maus resultados continuam culpando a Banda Gástrica pelo seu insucesso e insistem em buscar um novo método de emagrecimento. Essas pessoas ainda não conseguiram perceber que a potência para a transformação está dentro de cada uma de nós e não no tratamento que escolheram para emagrecer.

Nilton Bonder em "A Alma Imoral" fala do "curto caminho longo" e do "longo caminho curto" mostrando que no nosso anseio pelo caminho mais fácil muitas vezes aumentamos em muito o nosso percurso rumo ao que precisamos.

Quando os pais conseguem ensinar os filhos que o sofrimento, a frustração e a derrota fazem parte da vida, conseguem prepará-los para a realidade como ela é, evitando que eles cresçam gastando o seu tempo e a sua energia inventando formas de evitar a vida.


Flávia Scavone

15 de nov. de 2009

NOVIDADES! - XI Congresso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica


Neste último congresso o foco esteve nas cirurgias metabólicas, ou seja, as cirurgias com enfoque na resolução do diabetes tipo II.

Ao longo do tempo percebeu-se que as cirurgias bariátricas resultavam na melhora ou resolução do diabetes não apenas pelo emagrecimento, mas principalmente pelas modificações hormonais que elas causavam. A redução da grelina (hormônio responsável pela sensação de fome) e o aumento das incretinas (hormônios relacionados ao metabolismo dos nutrientes) são apontados como os responsáveis por essa melhora.

Muitos estudos foram apresentados e pesquisas estão sendo feitas para compreendermos quem se beneficiará da cirurgia e se realmente valerá operar diabéticos não obesos.

Outro tema bastante discutido foi o reganho de peso. É esperado que após o período dos primeiros dois anos as pessoas reganhem um pouco do peso que perderam ( de 2 a 7kg ou por volta de 15%). Porém, cerca de 20% dos operados acaba recuperando muito mais do que isso perdendo os benefícios da cirurgia. Cada vez mais os profissionais da área buscam compreender e desenvolver estratégias para auxiliar os pacientes na manutenção do peso. Mas o que funciona mesmo é a prevenção: a cirurgia precisa ser encarada como uma FERRAMENTA QUE AJUDA NA MODIFICAÇÃO DO ESTILO DE VIDA, ela não resolverá o problema sozinha!!

Como já escrevi em outros textos do blog (MUDAR DÓI, YES MAN!, DESENROLANDO A TERAPIA) o nosso organismo tende a ficar no padrão conhecido e sempre que tentamos mudar precisamos enfrentar uma força que vai contra o novo e a favor do velho, daquele jeito conhecido e confortável de viver. A novidade exige esforço porque é diferente. Observamos que após a cirurgia tanto o hábito de comer demais volta a se instalar (o operado começa a beliscar comidas calóricas) como o metabolismo tende a ajustar-se às mudanças gastrointestinais.

O segredo então é aproveitar os primeiros dois anos após a cirurgia para aprender um novo jeito de viver. E as pesquisas mostram: ficar perto da equipe ajuda na perda e manutenção do peso!!

Flávia Scavone

24 de nov. de 2008

Mudar dói


Quando falamos em transformação da personalidade é difícil para quem não está familiarizado com esse tipo de processo compreender os desafios de trilhar um caminho de mudança.

Poucas pessoas compreendem como a psique funciona e por isso esperam de um processo de transformação algo diferente do que experimentam.

Pela psique ser encarada como algo abstrato e intangível, tendemos a achar que ela funciona de forma diferente do resto do nosso organismo. Mas isso não é verdade. A psique faz parte do nosso organismo e funciona exatamente como todo o resto. Assim como corpo, a psique possui uma estrutura, e nela há um equilíbrio. Essa estrutura funciona de um determinado modo, por diversos fatores, e mesmo que cause dificuldades na nossa adaptação ao mundo ela está em equilíbrio. Pode ser um equilíbrio estranho, mas ainda assim é um equilíbrio.

Transformar significa mexer em um sistema que, até agora, está acostumado a funcionar de uma determinada forma e por isso, causa desconforto.

Costumo comparar o sistema psicológico ao postural. Quando sentimos dor nas costas isso acontece em consequência de como estamos nos posicionando. Se a postura causa dor, seria lógico que ao nos "endireitarmos" a dor passasse. Mas não é isso que acontece. Se "endireitar" dói. Dói porque não estamos acostumados com a postura nova , a musculatura exigida para sustentar essa nova posição ainda é frágil pois não era utilizada. Para conseguirmos modificar nossa postura precisamos fortalecer uma série de outras estruturas e mesmo assim, por um bom tempo, se relaxarmos, a antiga postura volta a tomar conta, porque é ela a mais forte por fazer parte do hábito mais antigo.

Assim, exatamente assim, funciona a psique. Como o organismo, ela se acomoda em certas posições e se ressente quando precisa se reajustar. E ela também dói, avisando que algo naquele sistema já não funciona mais e precisa ser revisto.

A dor deve ser observada como parte de um processo natural que ora pode funcionar como aviso, ora como exercício. Um momento de crise não deve ser encarado como algo a ser evitado mas sim como uma oportunidade para rever a nossa posição diante da vida.

Flávia Scavone

31 de out. de 2008

Palestra hospital São Luiz AF - Parte II- Sobre a Cirurgia da Obesidade


Infelizmente, o trabalho de transformação da personalidade é um trabalho lento. Um sistema demora 30, 40 anos para ser construído e não muda em seis meses. Quando se trata de obesidade mórbida não temos esse tempo. Há um grande sofrimento físico e psicológico que deve ser combatido e a cirurgia pode ser uma grande aliada.
Fomos observando ao longo da história da Cirurgia da Obesidade que ela, por si só, não é capaz de emagrecer e manter o paciente magro por muito tempo. Hoje sabemos que a atuação do operado é fundamental para que o resultado da cirurgia seja satisfatório. Portanto, precisamos, como equipe, observar algumas características no candidato antes que eles seja operado.
Em primeiro lugar é importante observar se o candidato tem a real percepção do processo cirúrgico. Idealizações como tempo de emagrecimento, grau de facilidade, ausência da vontade de comer, magreza auxiliando na resolução de conflitos, devem ser combatidas e reformuladas.

Em segundo lugar, precisamos compreender se o candidato possui habilidades físicas, emocionais e cognitivas para cuidar de si mesmo, já que a cirurgia vai exigir cuidados importantes, principalmente no que diz respeito à suplementação alimentar.

Em terceiro lugar, precisamos observar se o candidato compreendeu a sua parcela de responsabilidade pelo tratamento. Nesse momento a equipe precisa ficar atenta à incoerência entre discurso e atitude. Entender uma explicação não implica em transformação de comportamento. Por isso, exercícios práticos durante o pré-operatório são formas de observar se o candidato realmente consegue transformar informação em prática. Na clínica Flavio Queiroz realizamos exercícios de diário e reeducação alimentar antes da cirurgia, buscando auxiliar o candidato a conhecer e transformar o seu hábito alimentar na prática. O exame da bioimpedância auxilia na percepção da adesão do candidato ao exercício. Percebemos que o candidato que adere nesse momento se adapta melhor ao pós operatório.
Porém, nada nos garante que o paciente não apresentará dificuldades para se adaptar depois de operado. Devemos sempre ter em mente que exigimos do paciente algo que ele não conseguiu até o momento da cirurgia : a modificação do seu estilo de vida.
Portanto, é importante que a equipe, assim como o paciente, compreenda que a Cirurgia é um processo, que, como a vida, possuirá altos e baixos, erros e acertos, perdas e ganhos, alegrias e tristezas.
O sucesso da Cirurgia não está no emagrecimento, mas sim, na transformação da maneira de viver.
"Ignorância é insistir no mesmo comportamento buscando um resultado diferente"

Bibliografia

Baldaro,B. et al. 2003.Deficit in the discrimination of nonverbal emotions in children with obesity and their mothers. International Journal of Obesity;27: 191-195
Borges, MB. et al. 2002. Binge-Eating Disorder in Brazilian Women on a Weight-Loss Program. Obesity Research10, 1127–1134
Fernandes,N.; Tomé, R. 2001. Alexitimia. Revista Portuguesa de Psicossomática, jul-dez, ano/vol. 3, n. 002: 97-115. Porto, Portugal.
Jung, C.G.. 1971. A Natureza da Psique. Vozes. Petrópolos. RJ
Legorreta, G.et al. 1988. Alexithymia and symbolic function in the obese. Psychother Psychosom 50: 88–94.
Pinaquy,S. et al. 2003 Emotional Eating, Alexithymia, and Binge-Eating .Obesity Research 11, 195-201.

Palestra hospital São Luiz AF - 01/11/08 - Parte I -Obesidade

 


Como a Psicologia pode ajudar?

A maioria dos tratamentos para emagrecer não tem sucesso porque o paciente não consegue modificar o seu comportamento
O que estaria por trás dos comportamentos compulsivos?

Um pouco de história pode nos ajudar a compreender como a Psicologia Analítica explicaria essa dinâmica

Estudos de Breur e Freud (1880) sobre os efeitos da repressão demonstravam que depressão e sintomas físicos (histeria) que não podiam ser explicados, poderiam desaparecer após recordação de eventos traumáticos. Os sintomas seriam conexões simbólicas com recordações dolorosas, que poderiam ser tratados através da hipnose ou da terapia da fala.

Jung (1906), com o objetivo de verificar se essas zonas perturbadas da psique poderiam ser mapeadas, realizou uma pesquisa, durante 5 anos, aplicando em seus pacientes o Teste de Associação de Palavras. Esse procedimento, muito conhecido naquela época, consistia na associação livre e espontânea do paciente a partir de palavra estímulo. As respostas do paciente eram anotadas, bem como o seu tempo de reação, respiração e sudorese. Jung percebeu que as palavras causadoras de maiores reações orgânicas eram aquelas que estavam relacionadas com as áreas perturbadas da personalidade.

Assim, instaura-se uma nova forma de olhar o mundo: muitas reações do organismo poderiam ser explicadas pela atuação de aspectos desconhecidos da personalidade. Nesse momento histórico, foi introduzido na ciência a idéia do inconsciente: lados da personalidade que desconhecemos mas que nem por isso deixam de nos afetar diretamente.

À essas zonas de perturbação psíquica Jung deu o nome de complexo. O complexo seria um aglomerado de idéias, memórias e grande carga emocional que atuaria a partir de estímulos externos ou internos, subjugando a vontade do ego. Sua atuação seria pautada pelo automatismo e pela compulsividade.

Quanto mais relegados ao inconsciente, maior carga psíquica teriam os complexos.

Seriam como feridas psicológicas que quando estimuladas produziriam reações impulsivas e descontroladas .

Onde há a atuação do complexo desaparece a vontade do ego.

Esses complexos seriam basicamente formados por material psicológico dissociado da consciência, ou por eventos traumáticos, ou por conflitos morais, já que certas características da personalidade não são aceitas pela sociedade.

Essas parcelas reprimidas da personalidade tenderiam então a reaparecer através de comportamentos compulsivos ou sintomas corporais.

A obesidade, mais especificamente o comportamento do comer compulsivo teria então um significado psicológico: seria a expressão de conflitos inconscientes.

Como a psique fala através de símbolos, as sensações, os sintomas e as fantasias deveriam ser compreendidos como metáforas de uma realidade psicológica. A fome, o vazio, o desconforto que um dia podem ter sido interpretados como sendo do corpo, provavelmente têm o seu lugar no campo existencial. Existem diversos estudos demonstrando uma relação entre a alexitimia e a compulsão alimentar. Alexitimia seria uma condição onde o indivíduo teria dificuldade em reconhecer e verbalizar sentimentos (ver Borges, MB. et al. 2002 ; Fernandes,N. e Tomé, R. 2001; Legorreta, G.et al. 1988 ; Pinaquy,S. et al. 2003). Crianças que não são treinadas para reconhecer sentimentos tendem a interpretar qualquer desconforto como físico(ver Baldaro, 2003) procurando solucioná-lo fisicamente. Como a comida promove um certo alívio, esse comportamento seria reforçado tornando-se um hábito: uma maneira de lidar com a vida.

Breur, Freud, Jung entre outros pesquisadores do século passado foram descobrindo que trazer esses aspectos desconhecidos para a consciência poderia transformar os sintomas e os comportamentos.

Esse seria então o maior objetivo da Psicoterapia: criar um ambiente de reflexão, através da observação, do diálogo e da interpretação de símbolos visando a ampliação da consciência e, consequentemente a transformação da personalidade.

No caso da obesidade, precisaríamos num primeiro momento auxiliar o paciente a reconhecer o seu sistema de funcionamento, compreendendo como, onde e para quê ele foi instalado durante a sua história de vida.

Num segundo momento, o paciente precisaria escolher mudar, afinal, essa forma de viver tem as suas vantagens, e elas precisarão ser abandonadas para que se crie algo novo

O terceiro momento seria aquele onde auxiliaríamos o paciente a desenvolver novas habilidades para lidar com a realidade de uma outra forma. No caso da obesidade, o nosso maior foco seria o desenvolvimento da habilidade de discriminação de sentimentos, possibilitando a compreensão de manifestações psicológicas.