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21 de mai. de 2011

A dieta que dá certo x A dieta que dá errado

Ontem, fui entrevistada por pesquisadoras que buscam descobrir como um programa de emagrecimento pode ser mais efetivo e achei que seria legal resumir sobre o que conversamos aqui no blog. Durante nossa conversa, busquei as respostas tanto nos anos de prática como na minha pesquisa sobre o que influencia o sucesso do tratamento após a colocação da banda gástrica.

Vamos lá!

1. Aprendizado

Se você está buscando emagrecer precisa, em primeiro lugar, adquirir conhecimento. Antes de qualquer coisa, deve descobrir o que está fazendo você engordar (o exercício do diário alimentar ajuda muito). Depois, terá que aprender como pode fazer mudanças para uma alimentação saudável e viável. Aprendizado nunca é demais e muitas informações são difíceis de serem absorvidas. Muita gente não sabe, por exemplo, que legumes como cenoura e beterraba, quando cozidos, funcionam como carboidratos, aumentando o índice glicêmico no sangue e obrigando o seu corpo a produzir mais insulina. Ou mesmo que a farinha integral é mais saudável que a refinada, porém, pode engordar da mesma forma se for ingerida em quantidade. Procure um nutricionista, leia, pergunte. Assim fica mais fácil fazer escolhas corretas.

2. Empatia

Sim, você precisa gostar do profissional que está te orientando. Quem gosta da equipe tem melhores resultados. Se não foi com a cara do seu endocrinologista, personal trainer, nutricionista, psicólogo, etc…mude.

3. Motivação

O motivo que te faz buscar o emagrecimento está diretamente relacionado com o sucesso que você terá no tratamento. Está comprovado que quem busca emagrecer porque tomou um susto com um problema de saúde tem mais sucesso do que quem busca emagrecer para ficar mais bonito. Compreender como a gordura afeta o funcionamento do seu organismo e te coloca em risco pode ajudá-lo na mudança de estilo de vida.

4. Estresse

As pessoas que estão buscando emagrecer e que acabam passando por situações estressantes tendem a abandonar o tratamento com mais facilidade. Isso acontece porque comer é uma forma de lidar com sentimentos desconfortáveis. Se você não aprender a suportar desconforto, a buscar outras formas de prazer e a acolher suas emoções terá mais chances de ganhar peso quando a vida trouxer um desafio. Invista nisso.

5. Responsabilidade

Tendemos a culpar fatores externos pelo nosso sofrimento. E, muitas vezes, situações difíceis podem até explicar o comer demais mas não nos fazem mudar. As pessoas que culpam a família, a falta de tempo, a dieta escolhida e o trabalho têm mais probabilidade de ter insucesso no tratamento afinal, mudar o mundo é muito mais difícil do que mudar a nós mesmos. Para ter sucesso na mudança do estilo de vida você precisa querer se transformar. Portanto, mude o seu jeito de pensar: você não é vítima por não poder comer tudo o que quiser. Você pode comer de tudo e pagar o preço de ganhar peso. Se você não quer engordar e por isso, abre mão de alguns prazeres, você está fazendo uma escolha e quando escolhemos, não sofremos tanto assim. Você é livre para viver a vida como quiser!

6. Mudando os conceitos

A maioria das pessoas que quer emagrecer já fez diversas dietas, emagreceu e voltou a engordar. Dentro delas existe um conceito mais ou menos assim: ou eu estou de dieta, fazendo tudo certinho, ou eu estou “apavorando”, comendo tudo o que eu não deveria comer quando estou de dieta (a famosa "jacada"). Como eu sei que já, já estarei em privação, automaticamente começo a estocar alimentos “proibidos”. Se você está de dieta e come um chocolate, entende que estragou o processo e por isso tende a comer tudo o que acha que não deveria até o fim do dia (e isso engorda). Se você busca comer de forma saudável e resolveu comer um chocolate…tudo bem. Tem dias que são mais difíceis, a gente busca um carinho e segue adiante. Não precisa fazer estoque de doce porque “amanhã não vou mais poder comer”.

Portanto, o que dá errado é justamente fazer dieta. O que precisa ser transformado é o conceito porque dieta é algo que tem começo, meio e fim, e um jeito novo de viver bem deve durar para sempre.

19 de mar. de 2011

“Em um mundo melhor” e “Incêndios” entre o individual e o coletivo

Quando comecei minha “fase Oscar 2010” comentando sobre o “Cisne Negro”, achei que não esbarraria em outro filme tão intenso. Ledo engano! Essa parece ter sido a temporada de filmes mais tocantes dos últimos tempos. Um atrás do outro: “127 horas”, “Poesia”, “Biutiful”, “Incêndios” e enfim, “Em mundo melhor”.

Será que estamos tão anestesiados que a arte vem prestar esse serviço ao nos acordar para o que está acontecendo ao nosso redor? Acho que sim.

A Psicologia está mais acostumada a estudar, analisar, interpretar e trabalhar com a vida individual do que com a coletiva e já foi muito criticada por isso. Mas a Psicologia de Jung sempre esteve voltada para o coletivo, isso porque Jung via no indivíduo a manifestação ou atualização de potências coletivas, pertencentes a todos nós: os arquétipos. E acreditava também que a mudança do coletivo aconteceria através de cada indivíduo.

No cinema é comum assistirmos tramas que têm como pano de fundo os conflitos de uma nação ou de uma época. É interessante como observar esses conflitos através da vida privada nos auxilia a absorver melhor uma história coletiva. Parece que só assim conseguimos nos identificar, nos colocando no lugar do outro e podendo experimentar na pele o clima ao redor.

Por outro lado, podemos também ter a oportunidade de refletir como cada um de nós é responsável pela realidade que vivemos.

Tanto em “Incêndios” como “Em um mundo melhor” acompanhamos histórias que têm como pano de fundo conflitos, guerras e violência. E ambos os filmes conseguem mostrar como um ato violento possui um história que começa na vida privada.

Esses filmes mostram a estreita conexão entre a violência e o abandono, entre a raiva e o desamparo. Tanto em “Incêndios” como “Em um mundo melhor” vemos o retrato de uma geração de pais tão mal resolvidos com as suas próprias vidas que seria impossível esperar que amparassem os próprios filhos. E é na ausência desses pais que a dor começa a nascer, se transformando em ódio e depois, em atos violentos.

“Em um mundo melhor” mostra a imagem de um desses pais salvando vidas na África. Esse médico herói e sensível, consegue olhar com tanta ternura para os meninos que correm atrás do seu caminhão mas não consegue se conectar com o próprio filho que está só e desamparado na Dinamarca.

Paramos para pensar: de que adianta então salvar as vítimas da violência na África se dentro de casa, no outro lado do mundo, criamos espaço para os próximos violentos se desenvolverem? Como modificar o macro sem pensar no micro, que está aqui ao nosso lado?

São belíssimos filmes nos mostrando como a violência não está restrita à zonas de guerra e está aqui, dentro de cada um de nós, no nosso dia a dia. Eles mostram como o coletivo nada mais é do que a soma de atitudes individuais e que para modificar o todo não há outra forma a não ser começando aqui: dentro de casa!

1 de mar. de 2011

Fome psicológica na RedeTv!

A fome psicológica é a confusão que fazemos entre um desconforto emocional e a fome fisiológica.



Isso acontece pois fome, desconforto, sofrimento, ausência, abandono são temas relacionados em nossa memória, enquanto que conforto, alívio, aconchego e prazer estão associados à comida.


Além disso, as sensações físicas das emoções normalmente aparecem na mesma região do aparelho digestivo: travamos o maxilar quando sentimos raiva, sentimos um nó na garganta quanto estamos triste e um vazio no peito quando estamos insatisfeitos com a nossa própria vida.


Para que uma reeducação alimentar tenha sucesso é muito importante realizar um tratamento que auxilie na discriminação das sensações e no desenvolvimento de habilidades para lidar com elas.


Escrevi mais sobre esse assunto em Emoções e Obesidade

13 de fev. de 2011

“Cisne Negro” e a dissociação da personalidade

Cisne Negro é um dos melhores filmes que já assisti. É daqueles filmes que precisamos assistir com o peito aberto, sem medo de experimentar as sensações que ele nos provoca. Porque ele atinge, e muito.

Entre vários aspectos interessantes da trama, Cisne Negro mostra como acontece o processo que Jung chamou de dissociação da personalidade.

Como já comentei em "Quando os outros incomodam", todos os lados que não aceitamos em nós mesmos ficam na sombra e por estarem reprimidos tendem a aparecer de forma descontrolada, com muita intensidade.

Nina é a personificação da bailarina: meiga, delicada, bonita e passiva. Ela busca obsessivamente a perfeição, mas como ninguém é perfeito a sombra tende a aparecer, por mais que ela tente escondê-la.

A protagonista é uma garota tiranizada pela mãe e pelo diretor do espetáculo, mas não consegue se defender pois dentro da sua personalidade não cabe a mulher agressiva e ativa, cabe apenas a menina meiga.

A jovem passa o filme lutando contra as suas unhas e as marcas que elas deixam nas suas costas, pois não consegue controlar a compulsão por se coçar. Esse sintoma parece ser a única forma da sua agressividade se manifestar mas Nina tenta reprimi-lo, cada vez mais, podando as suas garras com tesouras e lixas de unha.

É assim que acontece o movimento de autorregulação da psique, que busca compensar as nossas atitudes unilaterais. Quanto mais rigidez na consciência, mais descontrole no inconsciente.

Na busca por viver o Cisne Negro ela precisa entrar em contato com a sua sombra e em tudo que lá habita. Porém, por estar tão distante desses lados da sua personalidade acaba sendo tomada por eles. E se perde.

Por não ter familiaridade com a mulher transgressora e agressiva que vive dentro de si, Nina não consegue sair ilesa do flerte que iniciou ao buscar inspiração.

A agressividade que deveria estar sendo utilizada em sua legítima defesa está tão inconsciente que assume vida própria e acaba voltando contra si mesma.

Na luta contra a própria sombra, Nina não reconhece que a outra é ela mesma e que ao matá-la está acabando com a sua própria vida.

Triste, intenso, emocionante, Cisne Negro mostra como é importante buscar a proximidade e a familiaridade com todos os lados da nossa personalidade para não nos tornarmos vítimas daquilo que não aceitamos em nós mesmos.

31 de dez. de 2010

Para 2010

O objetivo de toda terapia é estimular o auto conhecimento. E se conhecer melhor implica na descoberta de muitos lados da nossa personalidade: os que consideramos bons, aqueles dos quais temos vergonha, os que nos auxiliam e aqueles que nos boicotam.

Todo esse caminho nos leva à noção de responsabilidade, de que somos muito mais cúmplices da vida que levamos do que imaginávamos.

Sentir-se responsável pode doer um pouco, principalmente quando gera culpa por tudo o que já vivemos, mas também é libertador, pois só assim nos damos conta de que mudar está nas nossas mãos.

2010 me ensinou que para uma vida boa não há nada mais importante do que a noção de responsabilidade. E agradeço a ele por isso.

Então, não vou desejar que em 2011 todos os seus sonhos se realizem. Mas vou desejar sim, do fundo do meu coração, que você descubra qual caminho precisa percorrer para chegar até lá!


Deixo aqui um poema de Carlos Drummond de Andrade:

RECEITA DE ANO NOVO

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre
.”

Flávia Scavone

26 de dez. de 2010

“A princesa e o sapo” e o novo modelo de relação

No fim do dia de natal, ganhei um presente quando liguei a televisão justamente na hora em que o desenho “A princesa e o sapo” estava começando.


No conto, a princesinha, querendo sua bola dourada de volta, negocia beijar o sapo e acaba encontrando um príncipe. Para que o filme fosse atualizado e fizesse sentido, a história precisou ser modificada.

No filme encontramos três modelos de mulher: a mãe, que está voltada para a família, a representante do estereótipo feminino, que só pensa em se casar com o “príncipe encantado” e a nossa protagonista, aquela apoiada no modelo masculino, que busca o sucesso profissional, é extremamente prática, não consegue se divertir e acredita que o envolvimento afetivo é um obstáculo para seus objetivos (a nossa princesinha ficou um pouquinha mais complicada).

Esses são os três modelos mais marcantes do nosso tempo e acredito que o filme acaba mostrando um caminho para a busca feminina por um modelo que nos caiba melhor.

No filme, o príncipe se transforma em sapo durante a sua busca por uma mulher rica que pudesse bancar a sua vida boa, já que tinha sido deserdado. Já a protagonista acaba beijando o sapo em busca do dinheiro para realizar o sonho de comprar o seu restaurante.

A ironia está no fato de que ambos estão falidos e como ela não é uma princesa de verdade, ao invés de salvar o príncipe acaba se transformando em sapo também.

A feiticeira que poderia quebrar o encanto os adverte para a necessidade de saírem da superficialidade, indo mais fundo para descobrirem se o que pedem é o que realmente precisam. E, enquanto canta a feiticeira repete: cave mais, vá mais fundo, se pergunte, reflita, do que você realmente precisa.

Querer é diferente de precisar. Querer é ego, necessidade é alma.


E é nesse caminho, buscando transformarem-se em humanos novamente, que o encantamento acontece e o novo modelo de relação aparece.

Sem poder tirar nenhuma vantagem um do outro, eles precisam agora estar juntos em prol de um objetivo em comum e assim, viram parceiros. Ela aprende a se divertir, ele aprende a se esforçar. Ela abandona sua rigidez e ele, o seu egoísmo. Sem o interesse, o amor pode acontecer e ambos saem ganhando.


A nova mulher quer carreira e quer amor e o novo homem não precisa nem bancar e nem ser bancado por ela, ele pode ser parceiro!

Não preciso nem dizer que o filme tem um final feliz.

Então, mesmo atrasada, desejo a todos um feliz natal!

Flávia Scavone

11 de ago. de 2010

Quando os outros incomodam

Jung chamou de sombra todos os aspectos da nossa personalidade que foram reprimidos.

Tendemos a reprimir os aspectos que nos atrapalham na adaptação ao mundo e também, aquelas características que são moralmente inaceitáveis.

Tudo o que é reprimido e desconhecido na nossa personalidade tende a ser projetado no mundo e projeção vem sempre carregada de muita emoção. Tanto o amor quanto o ódio apontam para aspectos da nossa personalidade que estamos enxergando nos outros.

Por isso, o que nos chama a atenção em outras pessoas é sempre uma boa pista sobre os aspectos que não conhecemos e não aceitamos em nós mesmos.

Assim acontece quando os outros nos incomodam. Como não aceitamos os lados sombrios em nós, não os aceitamos nas outras pessoas. É por isso que Jung sugeria escrevermos um texto sobre as características das pessoas que nos incomodam e, ao terminar, voltar ao início da página intitulando, “Eu sou assim”, dois pontos…

É para ler e reler, muitas e muitas vezes, apesar dos arrepios.

Observe como, apesar de não concordarmos com certos modelos, as pessoas que são coerentes e assumidas tendem a não incomodar. Isso porque incoerência aponta para a sombra, pois é o resultado da luta entre o que somos e o que gostaríamos de ser. A incoerência alheia nos remete à nossa própria batalha entre esconder de nós mesmos e dos outros o que realmente somos e por isso, irrita um pouco (e às vezes muito).

Podemos, então, usar o que nos incomoda ao nosso favor. Quanto mais flagramos e aceitamos os nossos lados que não consideramos tão nobres, mais os aceitamos nos outros.Assim, nos tornamos mais humanos.

Leia também: Dia da Mentira

31 de jul. de 2010

“Vincere” e os cinco primeiros minutos

Uma pessoa muito querida costuma dizer que podemos compreender uma situação, bem como antecipar o seu desenrolar, logo no seu início. Parece que é um provérbio chinês (ou indiano) afirmando que os cinco primeiros minutos de uma situação ditam todo o resto.


E no filme Vincere encontrei um belo exemplo de como isso funciona.

Nos cinco primeiros minutos do filme, assistimos a uma bela mulher encantada com o jovem Mussolini que desafiava a existência de Deus. Em seguida, acompanhamos uma perseguição. Para se esconder da polícia ambos se refugiam em uma esquina e permanecem abraçados para não serem vistos. O clima tenso se transforma em sensual e após uma troca de olhar intenso ambos se beijam, no que parece ser um encontro quente e apaixonado.

Porém, contrastado com a entrega de Ida, observamos os olhos abertos de Mussolini, verificando se os policiais estão em volta. Ao se sentir seguro, larga a moça e vai embora.


Sim, são nesses cinco primeiros minutos que vemos uma moça encantada sendo beijada por um homem que encontrou nela apenas a possibilidade de escapar ileso da polícia.

Daí em diante acompanhamos o drama da mulher apaixonada que se entrega ao amante e depois se sente abandonada por ele.

Na visão de Ida, ela era a esposa legítima e mãe do primogênito de Mussolini, o que facilitou a sua internação em um manicômio já que Mussolini era casado com Rachele e não foram encontrados registros de casamento ou de paternidade.

Até o fim do filme não fica claro o que é real ou imaginário, afinal, o diretor foi cuidadoso e na sua forma de contar a trama não encontramos nenhuma cena deste homem iludindo esta mulher. Pelo contrário. Encontramos cenas onde Ida faz de tudo para ficar perto do amado, insiste nos encontros, observa Mussolini com a família e cenas onde pede um “eu te amo” que nunca vem.


Internada em um manicômio até o fim da vida, talvez a única loucura de Ida foi não ter conseguido enxergar a realidade contida nos cinco primeiros minutos, naquele beijo onde ela permanecia com os olhos fechados e ele, com os olhos abertos.

Vale muito a pena assistir!

23 de jul. de 2010

Fazendo escolhas

Diversas vezes na vida nos encontramos diante de situações que nos obrigam a fazer escolhas. E fazer escolhas pode ser um processo difícil.

Em primeiro lugar, como já escrevi anteriormente, escolher implica em uma certa liberdade e, quanto mais inconscientes estamos, mais risco corremos de sermos controlados pelos complexos psicológicos, aqueles lados desconhecidos da nossa personalidade que são cheios de potência e atuam independente da nossa vontade.


Também já escrevi que escolher implica em renúncias e estas, muitas vezes, dificultam o processo.


Mas e quando passamos por esses obstáculos e, enfim, fazemos escolhas?


Bem, o processo pós escolha é um processo à parte. Quando abrimos mão de algumas coisas em prol de outras nem sempre atingimos os nossos objetivos de imediato e, nesse momento, temos dúvidas e nos sentimos tentados a voltar atrás.

Chamo esse momento de “passagem”, quando nos encontramos entre dois modelos, dois padrões, duas referências, duas possibilidades. Abandonamos a primeira e ainda não chegamos na segunda e por isso nos sentimos sem nada, perdidos e angustiados. Estamos no “limbo”, aquele lugar que não é nem aqui, nem ali.


Passar por esse momento exige muita fé e fidelidade. Fé no sentido de acreditar no que ainda não se vê e fidelidade, pois só o pacto profundo com o que acreditamos pode nos manter firmes no caminho até que o novo chegue.

Voltar atrás é muito tentador porque parece mais cômodo estar em um lugar conhecido. É nessa hora que o diálogo interno se torna tão importante pois, só nós mesmos podemos nos relembrar do por quê abandonamos algumas coisas em busca de outras.

Estou de volta!

18 de dez. de 2009

Para 2009

O LONGO CAMINHO CURTO x O CURTO CAMINHO LONGO:

“Certa vez uma criança arrebatou o melhor de mim. Eu viajava e me encontrava diante de uma encruzilhada. Vi então um menino e lhe perguntei qual seria o caminho para a cidade. Ele respondeu: ‘Este é o caminho curto e longo e este é o longo e curto”. Tomei o curto e longo e logo me deparei com os obstáculos intransponíveis de jardins e pomares. Ao retornar, reclamei: ‘Meu filho, você não me disse que era o caminho curto?’ O menino então respondeu: ‘Porém lhe disse que era longo!’”

A ALMA IMORAL
Nilton Bonder

Quando nos sentimos presos em uma situação que parece se repetir num ciclo sem fim estamos escolhendo ao caminho curto e longo.

Durante a nossa vida fazemos opções por padrões que nos ajudam na adaptação ao mundo, porém esses padrões servem para um momento específico e precisam ser abandonados a favor das novas experiências da vida.

Mas abandonar formas de viver é uma tarefa difícil pois exige suportar um certo desconforto. A novidade exige a renúncia do modelo antigo e neste processo perdemos as referências até que novas formas sejam construídas: é daí que surge a sensação de uma distância longa e, muitas vezes, intransponível.

Tem gente que parece conseguir ser feliz com mais facilidade. Acredito que são pessoas que aprenderam logo cedo que pra “cada ganho existe uma perda, e para cada perda, um ganho”. Amadurecer parece que é mais ou menos isso: aceitar como a natureza funciona.

2009 andou me ensinando que precisamos de coragem. Coragem para aceitar que, para sermos felizes precisaremos enfrentar algumas distâncias: simples assim!

Desejo que em 2010 a gente deixe a preguiça de lado e escolha o “longo caminho curto”, afinal, o que são alguns passos a mais diante de uma vida mais feliz?

Feliz 2010!

Flávia Scavone

15 de dez. de 2009

Como utilizar o diário alimentar

 

O exercício do diário alimentar é uma ferramenta muito eficaz no tratamento para emagrecer.

Um estudo publicado no "American Journal of Preventive Medicine", demonstrou que os pacientes que possuíam um diário sobre seus hábitos alimentares perderam mais do que o dobro de peso que aqueles que não mantinham os registros: SEGREDO PARA PERDER PESO

Porém, nem sempre esse exercício parece eficaz e isso acontece por causa da forma como o utilizamos.

Deixar para anotar o que comemos no fim do dia, por exemplo, não funciona. O diário é um exercício para criar consciência e capacidade de reflexão sobre o que comemos.

Para criar consciência a anotação deve acontecer no mesmo momento ou logo em seguida da alimentação. Assim, sua atenção estará voltada  completamente para a situação e você se dará conta de como come e do quanto ingere. Normalmente ficamos chocados com o que observamos e nos damos conta do quanto subestimamos a nossa forma de se alimentar. Quando um obeso diz que  não compreende porque engorda, já que não come tanto, ele não está mentindo: a inconsciência faz parte do processo de comer demais e por isso esse exercício é tão valioso.

O próximo passo será desenvolver a habilidade de reflexão sobre o comportamento alimentar. Depois de um tempo anotando podemos passar para o próximo passo: anotar ANTES de comer. Assim, seremos obrigados a separar a quantidade e observá-la antes da ingestão. A maioria das pessoas que come demais refere uma sensação de falta de controle e isso acontece porque a compulsão alimentar faz parte de um padrão automático. Essa fase do exercício auxilia em muito na desconstrução desse habito automático.

Quanto mais consciência, mais auto controle.

7 de dez. de 2009

Em busca do caminho mais fácil

 

O psicanalista belga Jean Pierre Lebrun (ENSINEM OS FILHOS A FALHAR) diz que aprender a lidar com o insucesso é fundamental para livrar-se de apuros na vida adulta e sugere que os pais ensinem os filhos a falhar.

De maneira bem simples, sem grandes e complicadas interpretações psicológicas, Lebrun explica que viver a vida exige suportar momentos de desconforto e que quando não somos treinados para isso, tendemos a buscar formas de aliviar o sofrimento.

Lebrun fala das drogas mas encontramos diversas formas de evitar a realidade quando ela é considerada dolorosa. A compulsão alimentar é apenas mais uma delas.

Ao comer demais a pessoa consegue modificar o foco do conflito para a comida e, a longo prazo, culpar o excesso de peso por todas as suas dificuldades e sofrimentos.

Tanto no consultório como na vida observo como gastamos um montão de energia tentando evitar o desconforto. Estamos sempre a procura do caminho mais fácil. Nesse percurso perdemos muito tempo tentando evitar o inevitável: não há como passar por essa vida sem suportar alguns dissabores.

No processo de emagrecimento, tanto nos tratamentos clínicos como nos cirúrgicos, encontramos casos de sucesso e casos de insucesso. O que diferencia a pessoa que consegue ter sucesso da outra que não? Diversas pesquisas vêm buscando compreender as variáveis relacionadas aos resultados dos tratamentos. A minha pesquisa de mestrado ainda não está terminada mas já consigo observar algumas diferenças entre as pessoas que tiveram ou não sucesso após a Banda Gástrica e essa diferença está na atitude.

As pessoas que tiveram bons resultados compreenderam, de diversas formas, que não existe forma de perder ou manter o peso sem suportar um certo desconforto por não comer tudo o que têm vontade. Elas aprenderam que na vida a gente não tem tudo o que quer, simples assim. As pessoas com maus resultados continuam culpando a Banda Gástrica pelo seu insucesso e insistem em buscar um novo método de emagrecimento. Essas pessoas ainda não conseguiram perceber que a potência para a transformação está dentro de cada uma de nós e não no tratamento que escolheram para emagrecer.

Nilton Bonder em "A Alma Imoral" fala do "curto caminho longo" e do "longo caminho curto" mostrando que no nosso anseio pelo caminho mais fácil muitas vezes aumentamos em muito o nosso percurso rumo ao que precisamos.

Quando os pais conseguem ensinar os filhos que o sofrimento, a frustração e a derrota fazem parte da vida, conseguem prepará-los para a realidade como ela é, evitando que eles cresçam gastando o seu tempo e a sua energia inventando formas de evitar a vida.


Flávia Scavone

15 de nov. de 2009

NOVIDADES! - XI Congresso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica


Neste último congresso o foco esteve nas cirurgias metabólicas, ou seja, as cirurgias com enfoque na resolução do diabetes tipo II.

Ao longo do tempo percebeu-se que as cirurgias bariátricas resultavam na melhora ou resolução do diabetes não apenas pelo emagrecimento, mas principalmente pelas modificações hormonais que elas causavam. A redução da grelina (hormônio responsável pela sensação de fome) e o aumento das incretinas (hormônios relacionados ao metabolismo dos nutrientes) são apontados como os responsáveis por essa melhora.

Muitos estudos foram apresentados e pesquisas estão sendo feitas para compreendermos quem se beneficiará da cirurgia e se realmente valerá operar diabéticos não obesos.

Outro tema bastante discutido foi o reganho de peso. É esperado que após o período dos primeiros dois anos as pessoas reganhem um pouco do peso que perderam ( de 2 a 7kg ou por volta de 15%). Porém, cerca de 20% dos operados acaba recuperando muito mais do que isso perdendo os benefícios da cirurgia. Cada vez mais os profissionais da área buscam compreender e desenvolver estratégias para auxiliar os pacientes na manutenção do peso. Mas o que funciona mesmo é a prevenção: a cirurgia precisa ser encarada como uma FERRAMENTA QUE AJUDA NA MODIFICAÇÃO DO ESTILO DE VIDA, ela não resolverá o problema sozinha!!

Como já escrevi em outros textos do blog (MUDAR DÓI, YES MAN!, DESENROLANDO A TERAPIA) o nosso organismo tende a ficar no padrão conhecido e sempre que tentamos mudar precisamos enfrentar uma força que vai contra o novo e a favor do velho, daquele jeito conhecido e confortável de viver. A novidade exige esforço porque é diferente. Observamos que após a cirurgia tanto o hábito de comer demais volta a se instalar (o operado começa a beliscar comidas calóricas) como o metabolismo tende a ajustar-se às mudanças gastrointestinais.

O segredo então é aproveitar os primeiros dois anos após a cirurgia para aprender um novo jeito de viver. E as pesquisas mostram: ficar perto da equipe ajuda na perda e manutenção do peso!!

Flávia Scavone

28 de ago. de 2009

Sobre a Inveja


No livro Mal Secreto (Inveja), Zuenir Ventura busca esclarecer, logo de início, um erro comum cometido na linguagem do dia a dia: a diferença entre cobiça e inveja. Cobiça é quando queremos o que o outro tem. Inveja é quando não queremos que o outro tenha. Diferente, muito diferente.

Ver pessoas se corroendo de inveja por aí me fez ter muita vontade de escrever esse texto. Para quem costuma ler os meus textos já ficou claro como busco observar o lado positivo de certas situações, isso porque tenho como parâmetro a teoria de Jung e ele, mais do que ninguém, buscava sempre compreender a finalidade das coisas.

Estamos mais acostumados a olhar o mundo buscando as causas, os por quês das situações. Dificilmente buscamos compreender a finalidade, o para quê das coisas. Ele sempre acreditou que todo padrão na natureza tinha um sentido.

E a inveja? A inveja também tem um sentido, muito maior do que atormentar o nosso pensamento e atrapalhar nossas horas de sono.

Podemos entender porque temos inveja. O ser humano compete e busca ser melhor em várias situações. Se um outro tem o que eu quero é melhor que ele o perca, assim eu não me sinto ameaçado, ganho a competição e, principalmente, não me dou conta do meu incômodo por não ter o que ele tem.

Ops, saímos das causas para chegarmos na finalidade: eu preciso que o outro não tenha para não me dar conta de que quero algo que ainda não consegui. Assim fica mais fácil. Se não houver ninguém exibindo os meus maiores desejos eu não percebo como estou distante daquilo que sonhei para mim.

Existem duas maneiras de encarar a realidade: a passiva e a ativa. Querer que o outro fique sem para que eu me sinta melhor faz parte da primeira forma. Buscar o que eu descobri que quero, através do outro, faz parte da segunda forma.

A inveja é uma defesa contra a percepção da nossa realidade atual e pode deixar de ser dolorida para se tornar oportunidade.

Ao esquecermos do que o outro tem para nos darmos conta do que ainda não temos, estamos livres. Livres para seguirmos nossas vidas da maneira que queremos, lutando pelo que nos importa.

Portanto, use a inveja a seu favor. Ela é um guia poderoso para mostrar o caminho dos nossos maiores desejos.
Para saber mais:
CARLOS BYINGTON - INVEJA CRIATIVA

Flávia Scavone

6 de jul. de 2009

Anorexia Nervosa


A anorexia nervosa é um transtorno alimentar caracterizado pelo medo excessivo de ganhar peso, a recusa em manter o peso no nível considerado normal e uma grave distorção da imagem corporal fazendo com que a pessoa sinta-se gorda e muito insatisfeita com o seu corpo. Diferente dos casos de anorexia, onde a pessoa não sente fome e perde peso por outros problemas de saúde, na anorexia nervosa a pessoa sente fome mas busca controlá-la com o objetivo de perder peso.

Normalmente a anorexia aparece no período da puberdade/adolescência (dos 13 aos 18 anos) tendo o seu início associado a uma situação de estresse. Tem uma prevalência de 1% na população sendo que a maioria dos casos (por volta de 90%) é do sexo feminino. Esses valores são discutidos atualmente, pois observa-se um número crescente de homens com transtorno alimentar.

O tratamento da anorexia nervosa deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar especializada composta de clínico geral ou endocrinologista, psiquiatra, psicólogo e nutricionista. Mas antes de qualquer tratamento, a pessoa que sofre de anorexia precisa ser retirada do risco de vida, já que esse transtorno pode acarretar em morte, principalmente por condições relacionadas com a inanição.

É muito importante que os familiares fiquem atentos aos sinais da doença como a recusa por se alimentar, a perda acentuada de peso e a obsessão pelo emagrecimento. Pessoas que estão relacionados com atividades que exigem a magreza (ginastas, bailarinos, modelos) tendem a apresentar mais o distúrbio do que as outras pessoas.

Um jovem que está insatisfeito com o seu peso pode, após iniciar uma dieta, sentir-se bem com o emagrecimento pois recebe elogios, chama mais atenção e sente que tem controle sobre a própria vida.Isso faz com que a perda de peso continue a ser buscada já que proporcionou um ganho psicológico.

A sensação de insatisfação consigo mesmo está diretamente ligada a esse transtorno. Muitos jovens que apresentam anorexia possuem um perfil perfeccionista, com um alto grau de exigência em relação a si mesmo. A busca pela perfeição aparece em várias áreas da vida, nos estudos, nos esportes, no trabalho e com o próprio corpo. A auto estima, o valor que atribui a si mesmo, normalmente é muito baixo, o que o faz buscar essas modificações corporais.

Em uma cultura como a nossa, que valoriza o corpo magro e o associa com a beleza e o sucesso pode estimular uma feriado psicológica a se manifestar na forma de um transtorno alimentar. Alguém que está passando por uma fase difícil, de pressões ou conflitos emocionais, pode acabar transferindo esse desconforto para a própria imagem. Percebemos em muitos casos de anorexia nervosa que existe uma angústia importante que é interpretada como insatisfação corporal mas que, após algum tempo de tratamento, acaba se revelando uma angústia ligada a outras questões como dificuldades de desenvolvimento e adaptação e conflitos familiares.

A sensação de nunca ser bom o suficiente para ser amado pode ter suas raízes nas relações familiares. Muitos jovens passaram por conflitos familiares durante a infância e os pais, por diversas razões, ficaram emocionalmente ausentes. A criança, sem conseguir compreender direito a situação, tende a interpretar o distanciamento emocional como resultado de uma falta de amor, normalmente porque ela não é boa o suficiente para conseguir a atenção dos pais. Essa criança pode crescer buscando uma perfeição que no fundo nada mais é do que uma busca por ser aceito e amado.

Como a ferida original não está ligada ao corpo e sim a uma sensação de pouco valor, ela não se resolve através do emagrecimento. Por mais que emagreça, a pessoa nunca se sentirá satisfeita. Por isso ela precisará tratar o seu auto valor e as suas relações, principalmente as familiares.

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Flávia Scavone

24 de jun. de 2009

Sobre o amor


Uma vez ouvi de um colega que os seres humanos são todos iguais: "a humanidade muda muito pouco - dizia ele - é só observar a mitologia grega por exemplo: 3 mil anos se passaram e os conflitos são exatamente os mesmos."

No filme ROMANCE de Guel Arraes, as personagens cercam-se das grandes histórias de amor, buscando encontrar uma fórmula viável de amar. Entre o amor mitológico e a rotina diária há tamanho abismo que fica difícil acreditar ser possível dar continuidade a um grande amor.

Na faculdade aprendíamos sobre o amor platônico e o amor real. O amor platônico seria aquele amor idealizado, romântico, que como em "Tristão e Isolda" é transbordante de belo por ser, justamente, impossível. Quanto mais longe da realidade, mais belo seria, e justamente seria belo, por estar bem longe do real.

Já o amor real seria o amor maduro. Longe da paixão, ele seria aquele onde não existiria projeção, onde o outro seria ele mesmo e não um amontoado de desejos e idealizações. Esse, talvez teria chances de dar certo, afinal, nenhuma relação dá conta de fazer alguém feliz...muita responsabilidade para uma relação só.

Existirá mesmo essa relação tão isenta de expectativas, projeções e ideais?

Para Jung a projeção não era algo tão ruim assim. Podia ser um mecanismo de defesa mas era também um caminho, uma forma de enxergar através do outro algo que não consigo visualizar em mim. A projeção seria, antes de tudo, uma possibilidade.

E se o amor fosse um caminho, um caminho de reencontro com os nossos próprios lados? E se o desejo, a atração, o arrepio, a saudade fossem justamente sinais do meu organismo procurando no outro algo que me faz falta?

Certos lados nunca seriam revelados se não tivessem existido certas relações. Diversas experiências jamais seriam adquiridas se estivéssemos sozinhos. Em cada relação encontramos, através de alguém e junto com o outro, um mundo novo.

E isso só será paixão se houver dor, afinal "paixão" significa "sofrimento". E talvez não exista mais dor se houver compreensão do movimento: de que estou buscando o outro justamente para chegar em mim, para que me reencontre com lados que jamais conheci e por isso só os reconheço em uma outra face.

E quando me reencontrar posso estar ao lado, assim mesmo, apenas estando. Porque agora sou inteiro e sou grato ao encontro que aqui me trouxe.

Ana e Pedro precisaram viver o amor ideal através das grandes histórias, e cada um em seu momento pôde fazer o contrapeso, trazendo o outro à realidade onde o amor se encontrava nos pequenos atos de cuidado, de respeito e de desapego. Conseguiram assim construir a sua história, onde inventaram a sua própria fórmula do que faz ficar junto. Com coragem, muita coragem, para experimentar.

Flávia Scavone

1 de abr. de 2009

Dia da Mentira


No início da minha carreira passei muito tempo tentando descobrir porque tanta gente tinha horror a terapia.

Para mim, estar com alguém buscando descobrir detalhes sobre mim mesma era a melhor coisa do mundo. Do outro lado, estar com alguém para tentar compreender como aquela pessoa funciona e porque sente e se comporta de determinada forma, não podia ser uma tarefa mais interessante. Não entendia como alguém podia escolher outra profissão.

Com o passar dos anos fui compreendendo algumas questões.

Terapia é difícil? É, mas somente para quem não quer saber mais sobre si mesmo. E tem um montão de gente que não quer.

O que observo é a dificuldade que temos em encarar as coisas como elas realmente são. E isso acontece principalmente em relação a nossa própria personalidade. Parece que antes de absorvermos a realidade, possuímos um mecanismo que filtra e distorce as coisas de acordo com os nossos desejos e dificuldades.

Como terapeuta, acompanhei muita gente corando ao sacar mais sobre si mesma. Quem já passou por isso sabe a sensação de vergonha ou horror quando percebemos que somos muito diferentes do que imaginávamos.

Quando descobrimos lados da nossa personaldidade que consideramos nobres é tudo de bom, mas quando encaramos sentimentos e pensamentos que consideramos abomináveis, começamos a corar. É essa reprovação que atrasa muitos processos terapêuticos. Quanto mais reprovação, mais resistência em aceitar esse lado como sendo nosso. Quanto mais resistência, menos diálogo e controle com esse lado desagradável.

Com a realidade não é diferente. Assimilar que as coisas não são como imaginamos é sacar que buscávamos algo diferente do que realmente temos nas mãos. Isso pede tempo e paciência para digerir que nem tudo é como queremos.

O desejo é tão importante na nossa cultura que se faz qualquer negócio para satisfazê-lo, inclusive enganar a si mesmo. Não é à toa que falamos frases como "cair na real" com a conotação de que "a verdade dói".

O que muita gente não percebe é que a verdade pode ser muito mais parceira do que inimiga. Diante de uma situação tal como ela realmente é, podemos nos posicionar e fazer algo a respeito. Enquanto nos enganamos, perdemos tempo e não caminhamos para lugar algum, apenas nos relacionamos com a nossa própria imaginação.

Por isso eu sou à favor do dia da mentira. Assim a gente mente bastante no dia 1° Abril, para não cair na tentação de nos enganarmos no resto do ano!

Flávia Scavone

19 de mar. de 2009

Yes, man!

 

Não tenho nada contra o Jim Carrey. Muito menos contra comédias românticas. De verdade. Mesmo assim o filme "Sim, senhor" não estava na minha lista dos que "valem ser vistos no cinema". Porém, ilhada no bairro do Tatuapé após a tempestade que alagou nossa cidade na última terça feira e diante da restrita lista no caixa do cinema que me abrigou, não tive outra opção a não ser dizer sim.

Quem nunca sofreu após uma desilusão amorosa? Quem, depois dessa desilusão, nunca duvidou da própria capacidade de se encantar novamente pela vida? E quem nunca fugiu por medo de sofrer de novo?

É assim que está Carl no início do filme: solitário, entediado, fugindo de qualquer novidade que possa modificar sua rotina. Preso no passado ele resiste em seguir adiante.

Ao participar de uma palestra de auto ajuda que tem como objetivo estimular as pessoas a dizerem "sim", Carl se propõe a responder afirmativamente diante de qualquer proposta que lhe for feita. Daí em diante, ele inicia uma série de novas experiências que acabam lhe mostrando um jeito completamente diferente de viver a vida.

Mas o que o faz mudar radicalmente?

Medo. Medo de morrer sozinho.

Muitas vezes nos encontramos acomodados em situações que estão muito aquém dos nossos limites e que nos oferecem muito pouco, apenas por medo de experimentar aquela sensação ruim que acompanhou os nossos momentos de decepção.

Porém, da mesma forma que o medo paralisa, ele movimenta.

No texto "A Planície e o Abismo" de Rubem Alves o viajante deve subir a montanha para, enfrentando o abismo e seus desafios, lembrar-se de que a vida não é apenas como a planície: confortável e linear. Harold Crick, no filme "Mais estranho que a ficção", consegue romper com a sua vida milimetricamente planejada apenas quando descobre que, como personagem de um livro, pode morrer se a autora do texto assim desejar.

Parece que a morte nos presta esse serviço. Por mais temida que seja, ela está lá como o abismo a nos lembrar da finitude. Por mais dramático que pareça, apenas essa lembrança nos faz valorizar o que passa batido quando estamos imersos na rotina do dia a dia.

Carl, ao dizer sim para tudo, saca quantas possibilidades existem na vida e que, por comodismo ou medo, perdemos uma boa parcela delas a cada dia.

Precisa forçar um pouquinho para vencer o medo?

Precisa.

Diante de um padrão é assim: o organismo acostumado sofre para mudar e resiste buscando voltar à posição anterior. Mas logo em seguida ele pode experimentar o reforço de um novo comportamento e se adaptar. Assim como no filme, um pequeno empurrão pode iniciar um movimento que se auto alimentará e quando nos dermos conta... já aprendemos a viver de uma outra forma.

Por isso esse post é dedicado aos que têm medo da vida, mas que, bem lá no fundo, sentem muito mais medo é da morte. Ainda bem!

Flávia Scavone

16 de mar. de 2009

Desenrolando a terapia

 

Há tanto tempo na área, cercada de tanta gente que faz terapia, me esqueço da quantidade de pessoas que não compreendem como a Psicologia funciona. Aliás, essa foi a intenção quando montei esse blog: falar de psicologia de uma forma bem simples.

Vamos falar de terapia.

Andei me surpreendendo com olhos arregalados depois de alguns comentários que faço sobre certas situações. Não são os olhos arregalados de quem está observando, mas sim daqueles "você tem poderes sobrenaturais!".

Não, definitivamente não tenho. E pelo que saiba, até agora, nenhum terapeuta tem. Mas realmente aprendemos e estamos treinados a observar a vida de uma outra forma.

Quer entender como compreendemos as situações?

O primeiro passo é entender o que chamamos de inconsciente. Ao invés de pensar no inconsciente como um local, pense nele como um estado. Estamos inconscientes quando não percebemos algo. Porém, esse algo não deixa de existir apenas pelo fato de não nos darmos conta dele.

Esse foi o grande avanço científico proporcionado pela Psicologia do início do século passado: mostrar que nossa consciência é limitada e que vários aspectos de nós mesmos e da realidade nos escapam.

Como descobrir mais sobre o que não estamos enxergando?

Emoções e contradições.

Os lados da nossa personalidade que desconhecemos são como "personagens" que tomam conta das nossas ações. Eles são os complexos. Todo mundo já experimentou a sensação de ser possuído por uma emoção qualquer. Toda vez que algum tema tende a nos despertar reações emocionais desproporcionais ele está ligado a algo inconsciente. Os complexos nos fazem perder o controle e são como lentes embaçadas que atrapalham a visão.

Os lacanianos falam do desejo e da demanda. A demanda é o que falamos que queremos. O desejo é o que realmente queremos, aquilo que nossa ação busca. Observar a contradição entre o discurso e a atitude é a forma mais eficaz de se conhecer alguém. Quando falamos algo e fazemos o inverso estamos em conflito sem nos darmos conta porque provavelmente estamos sofrendo influências de um complexo. É nesse momento que o terapeuta entra para ajudar.

O papel do terapeuta é flagrar essa contradição para que a pessoa possa se dar conta dos lados dela que não caminham de acordo com seu discurso. Só assim ela vai conseguir se transformar ou...se assumir com mais facilidade.

A Psicologia não enxerga as pessoas como vítimas do mundo, mas como vítimas dos lados de si mesmas que desconhecem. Quanto mais inconsciência, menos liberdade.

Flávia Scavone

11 de mar. de 2009

Correndo riscos


Com o passar dos anos pude acompanhar os meus amigos amadurecendo. Entre eles estão o grupo de pais recentes. Uma boa parcela se encontra entre o primeiro e o segundo filho, ainda pequenos. Um grupo de risco
(REGRAS QUE NÃO PÕEM A MESA) .

Antes do primeiro filho veio a primeira gravidez. Antes, ou mais ou menos antes, o primeiro casamento. Teve também a primeira faculdade, a pós graduação. O primeiro emprego e a primeira demissão. E junto a todos esses passos uma grande lista de regras para seguir.

Em toda mídia, a cada dia mais, se proliferam os manuais: como comer, como se relacionar, como criar filhos, como ganhar dinheiro, como ter sucesso, como se divertir. Enfim, como viver.

Sem perceber, fomos colocados no lugar de alunos. Ou melhor, nos colocamos no lugar dos ignorantes, daqueles que não conseguem sequer decidir o que vestir.

O que acontecia na época em que não existiam os manuais?

As pessoas usavam o "instinto", ou seja, conseguiam se guiar pela natureza das coisas. Simples assim. A sabedoria era repassada de geração em geração através do conhecimento adquirido pela experiência, e não pela teoria.

Hoje todos nós temos medo de fazer "errado". Sem limites para a escolha dos modelos de como viver, nos sentimos inseguros em tomar um rumo em prol de outro qualquer e acabar se arrependendo. Esse é o mal dos nossos tempos: podemos tudo e não conseguimos escolher por nada. Isso gera angústia.

É na brecha dessa angústia que muita gente encontrou espaço para escrever como todos nós temos que viver. Assim, quem tem medo encontra amparo em uma lista qualquer.

O serviço que a Psicologia pode prestar está longe do de ditar mais uma grande lista de regras. A Psicologia mostra que existe uma possibilidade de se viver bem: saber o que se quer, sabendo quem se é. Encontrando o desejo legítimo e reconhecendo os próprios limites se vai longe.

A vida continuará de qualquer forma. Parado ou caminhando, estaremos sempre criando um destino. Tendo essa consciência ao menos podemos viver escolhendo os riscos inevitáveis que vamos correr, só pelo fato de acordarmos a cada dia.

Flávia Scavone