19 de fev. de 2014
Educando os filhos para o futuro
3 de dez. de 2013
"Vista quem você é" : a moda em parceria com o autoconhecimento!
7 de abr. de 2011
Sobre o massacre na escola do Rio de Janeiro
19 de mar. de 2011
“Em um mundo melhor” e “Incêndios” entre o individual e o coletivo
Quando comecei minha “fase Oscar 2010” comentando sobre o “Cisne Negro”, achei que não esbarraria em outro filme tão intenso. Ledo engano! Essa parece ter sido a temporada de filmes mais tocantes dos últimos tempos. Um atrás do outro: “127 horas”, “Poesia”, “Biutiful”, “Incêndios” e enfim, “Em mundo melhor”.
Será que estamos tão anestesiados que a arte vem prestar esse serviço ao nos acordar para o que está acontecendo ao nosso redor? Acho que sim.
A Psicologia está mais acostumada a estudar, analisar, interpretar e trabalhar com a vida individual do que com a coletiva e já foi muito criticada por isso. Mas a Psicologia de Jung sempre esteve voltada para o coletivo, isso porque Jung via no indivíduo a manifestação ou atualização de potências coletivas, pertencentes a todos nós: os arquétipos. E acreditava também que a mudança do coletivo aconteceria através de cada indivíduo.
No cinema é comum assistirmos tramas que têm como pano de fundo os conflitos de uma nação ou de uma época. É interessante como observar esses conflitos através da vida privada nos auxilia a absorver melhor uma história coletiva. Parece que só assim conseguimos nos identificar, nos colocando no lugar do outro e podendo experimentar na pele o clima ao redor.
Por outro lado, podemos também ter a oportunidade de refletir como cada um de nós é responsável pela realidade que vivemos.
Tanto em “Incêndios” como “Em um mundo melhor” acompanhamos histórias que têm como pano de fundo conflitos, guerras e violência. E ambos os filmes conseguem mostrar como um ato violento possui um história que começa na vida privada.
Esses filmes mostram a estreita conexão entre a violência e o abandono, entre a raiva e o desamparo. Tanto em “Incêndios” como “Em um mundo melhor” vemos o retrato de uma geração de pais tão mal resolvidos com as suas próprias vidas que seria impossível esperar que amparassem os próprios filhos. E é na ausência desses pais que a dor começa a nascer, se transformando em ódio e depois, em atos violentos.
“Em um mundo melhor” mostra a imagem de um desses pais salvando vidas na África. Esse médico herói e sensível, consegue olhar com tanta ternura para os meninos que correm atrás do seu caminhão mas não consegue se conectar com o próprio filho que está só e desamparado na Dinamarca.
Paramos para pensar: de que adianta então salvar as vítimas da violência na África se dentro de casa, no outro lado do mundo, criamos espaço para os próximos violentos se desenvolverem? Como modificar o macro sem pensar no micro, que está aqui ao nosso lado?
São belíssimos filmes nos mostrando como a violência não está restrita à zonas de guerra e está aqui, dentro de cada um de nós, no nosso dia a dia. Eles mostram como o coletivo nada mais é do que a soma de atitudes individuais e que para modificar o todo não há outra forma a não ser começando aqui: dentro de casa!
13 de fev. de 2011
“Cisne Negro” e a dissociação da personalidade
Cisne Negro é um dos melhores filmes que já assisti. É daqueles filmes que precisamos assistir com o peito aberto, sem medo de experimentar as sensações que ele nos provoca. Porque ele atinge, e muito.
Entre vários aspectos interessantes da trama, Cisne Negro mostra como acontece o processo que Jung chamou de dissociação da personalidade.
Como já comentei em "Quando os outros incomodam", todos os lados que não aceitamos em nós mesmos ficam na sombra e por estarem reprimidos tendem a aparecer de forma descontrolada, com muita intensidade.
Nina é a personificação da bailarina: meiga, delicada, bonita e passiva. Ela busca obsessivamente a perfeição, mas como ninguém é perfeito a sombra tende a aparecer, por mais que ela tente escondê-la.
A protagonista é uma garota tiranizada pela mãe e pelo diretor do espetáculo, mas não consegue se defender pois dentro da sua personalidade não cabe a mulher agressiva e ativa, cabe apenas a menina meiga.
A jovem passa o filme lutando contra as suas unhas e as marcas que elas deixam nas suas costas, pois não consegue controlar a compulsão por se coçar. Esse sintoma parece ser a única forma da sua agressividade se manifestar mas Nina tenta reprimi-lo, cada vez mais, podando as suas garras com tesouras e lixas de unha.
É assim que acontece o movimento de autorregulação da psique, que busca compensar as nossas atitudes unilaterais. Quanto mais rigidez na consciência, mais descontrole no inconsciente.
Na busca por viver o Cisne Negro ela precisa entrar em contato com a sua sombra e em tudo que lá habita. Porém, por estar tão distante desses lados da sua personalidade acaba sendo tomada por eles. E se perde.
Por não ter familiaridade com a mulher transgressora e agressiva que vive dentro de si, Nina não consegue sair ilesa do flerte que iniciou ao buscar inspiração.
A agressividade que deveria estar sendo utilizada em sua legítima defesa está tão inconsciente que assume vida própria e acaba voltando contra si mesma.
Na luta contra a própria sombra, Nina não reconhece que a outra é ela mesma e que ao matá-la está acabando com a sua própria vida.
Triste, intenso, emocionante, Cisne Negro mostra como é importante buscar a proximidade e a familiaridade com todos os lados da nossa personalidade para não nos tornarmos vítimas daquilo que não aceitamos em nós mesmos.
26 de dez. de 2010
“A princesa e o sapo” e o novo modelo de relação
No fim do dia de natal, ganhei um presente quando liguei a televisão justamente na hora em que o desenho “A princesa e o sapo” estava começando.
No conto, a princesinha, querendo sua bola dourada de volta, negocia beijar o sapo e acaba encontrando um príncipe. Para que o filme fosse atualizado e fizesse sentido, a história precisou ser modificada.
No filme encontramos três modelos de mulher: a mãe, que está voltada para a família, a representante do estereótipo feminino, que só pensa em se casar com o “príncipe encantado” e a nossa protagonista, aquela apoiada no modelo masculino, que busca o sucesso profissional, é extremamente prática, não consegue se divertir e acredita que o envolvimento afetivo é um obstáculo para seus objetivos (a nossa princesinha ficou um pouquinha mais complicada).
Esses são os três modelos mais marcantes do nosso tempo e acredito que o filme acaba mostrando um caminho para a busca feminina por um modelo que nos caiba melhor.
No filme, o príncipe se transforma em sapo durante a sua busca por uma mulher rica que pudesse bancar a sua vida boa, já que tinha sido deserdado. Já a protagonista acaba beijando o sapo em busca do dinheiro para realizar o sonho de comprar o seu restaurante.
A ironia está no fato de que ambos estão falidos e como ela não é uma princesa de verdade, ao invés de salvar o príncipe acaba se transformando em sapo também.
A feiticeira que poderia quebrar o encanto os adverte para a necessidade de saírem da superficialidade, indo mais fundo para descobrirem se o que pedem é o que realmente precisam. E, enquanto canta a feiticeira repete: cave mais, vá mais fundo, se pergunte, reflita, do que você realmente precisa.
Querer é diferente de precisar. Querer é ego, necessidade é alma.
E é nesse caminho, buscando transformarem-se em humanos novamente, que o encantamento acontece e o novo modelo de relação aparece.
Sem poder tirar nenhuma vantagem um do outro, eles precisam agora estar juntos em prol de um objetivo em comum e assim, viram parceiros. Ela aprende a se divertir, ele aprende a se esforçar. Ela abandona sua rigidez e ele, o seu egoísmo. Sem o interesse, o amor pode acontecer e ambos saem ganhando.
A nova mulher quer carreira e quer amor e o novo homem não precisa nem bancar e nem ser bancado por ela, ele pode ser parceiro!
Não preciso nem dizer que o filme tem um final feliz.
Então, mesmo atrasada, desejo a todos um feliz natal!
Flávia Scavone
31 de jul. de 2010
“Vincere” e os cinco primeiros minutos
Uma pessoa muito querida costuma dizer que podemos compreender uma situação, bem como antecipar o seu desenrolar, logo no seu início. Parece que é um provérbio chinês (ou indiano) afirmando que os cinco primeiros minutos de uma situação ditam todo o resto.
E no filme Vincere encontrei um belo exemplo de como isso funciona.
Nos cinco primeiros minutos do filme, assistimos a uma bela mulher encantada com o jovem Mussolini que desafiava a existência de Deus. Em seguida, acompanhamos uma perseguição. Para se esconder da polícia ambos se refugiam em uma esquina e permanecem abraçados para não serem vistos. O clima tenso se transforma em sensual e após uma troca de olhar intenso ambos se beijam, no que parece ser um encontro quente e apaixonado.
Porém, contrastado com a entrega de Ida, observamos os olhos abertos de Mussolini, verificando se os policiais estão em volta. Ao se sentir seguro, larga a moça e vai embora.
Sim, são nesses cinco primeiros minutos que vemos uma moça encantada sendo beijada por um homem que encontrou nela apenas a possibilidade de escapar ileso da polícia.
Daí em diante acompanhamos o drama da mulher apaixonada que se entrega ao amante e depois se sente abandonada por ele.
Na visão de Ida, ela era a esposa legítima e mãe do primogênito de Mussolini, o que facilitou a sua internação em um manicômio já que Mussolini era casado com Rachele e não foram encontrados registros de casamento ou de paternidade.
Até o fim do filme não fica claro o que é real ou imaginário, afinal, o diretor foi cuidadoso e na sua forma de contar a trama não encontramos nenhuma cena deste homem iludindo esta mulher. Pelo contrário. Encontramos cenas onde Ida faz de tudo para ficar perto do amado, insiste nos encontros, observa Mussolini com a família e cenas onde pede um “eu te amo” que nunca vem.
Internada em um manicômio até o fim da vida, talvez a única loucura de Ida foi não ter conseguido enxergar a realidade contida nos cinco primeiros minutos, naquele beijo onde ela permanecia com os olhos fechados e ele, com os olhos abertos.
Vale muito a pena assistir!
24 de jun. de 2009
Sobre o amor
Uma vez ouvi de um colega que os seres humanos são todos iguais: "a humanidade muda muito pouco - dizia ele - é só observar a mitologia grega por exemplo: 3 mil anos se passaram e os conflitos são exatamente os mesmos."
No filme ROMANCE de Guel Arraes, as personagens cercam-se das grandes histórias de amor, buscando encontrar uma fórmula viável de amar. Entre o amor mitológico e a rotina diária há tamanho abismo que fica difícil acreditar ser possível dar continuidade a um grande amor.
Na faculdade aprendíamos sobre o amor platônico e o amor real. O amor platônico seria aquele amor idealizado, romântico, que como em "Tristão e Isolda" é transbordante de belo por ser, justamente, impossível. Quanto mais longe da realidade, mais belo seria, e justamente seria belo, por estar bem longe do real.
Já o amor real seria o amor maduro. Longe da paixão, ele seria aquele onde não existiria projeção, onde o outro seria ele mesmo e não um amontoado de desejos e idealizações. Esse, talvez teria chances de dar certo, afinal, nenhuma relação dá conta de fazer alguém feliz...muita responsabilidade para uma relação só.
Existirá mesmo essa relação tão isenta de expectativas, projeções e ideais?
Para Jung a projeção não era algo tão ruim assim. Podia ser um mecanismo de defesa mas era também um caminho, uma forma de enxergar através do outro algo que não consigo visualizar em mim. A projeção seria, antes de tudo, uma possibilidade.
E se o amor fosse um caminho, um caminho de reencontro com os nossos próprios lados? E se o desejo, a atração, o arrepio, a saudade fossem justamente sinais do meu organismo procurando no outro algo que me faz falta?
Certos lados nunca seriam revelados se não tivessem existido certas relações. Diversas experiências jamais seriam adquiridas se estivéssemos sozinhos. Em cada relação encontramos, através de alguém e junto com o outro, um mundo novo.
E isso só será paixão se houver dor, afinal "paixão" significa "sofrimento". E talvez não exista mais dor se houver compreensão do movimento: de que estou buscando o outro justamente para chegar em mim, para que me reencontre com lados que jamais conheci e por isso só os reconheço em uma outra face.
E quando me reencontrar posso estar ao lado, assim mesmo, apenas estando. Porque agora sou inteiro e sou grato ao encontro que aqui me trouxe.
Ana e Pedro precisaram viver o amor ideal através das grandes histórias, e cada um em seu momento pôde fazer o contrapeso, trazendo o outro à realidade onde o amor se encontrava nos pequenos atos de cuidado, de respeito e de desapego. Conseguiram assim construir a sua história, onde inventaram a sua própria fórmula do que faz ficar junto. Com coragem, muita coragem, para experimentar.
19 de mar. de 2009
Yes, man!
Não tenho nada contra o Jim Carrey. Muito menos contra comédias românticas. De verdade. Mesmo assim o filme "Sim, senhor" não estava na minha lista dos que "valem ser vistos no cinema". Porém, ilhada no bairro do Tatuapé após a tempestade que alagou nossa cidade na última terça feira e diante da restrita lista no caixa do cinema que me abrigou, não tive outra opção a não ser dizer sim.
Quem nunca sofreu após uma desilusão amorosa? Quem, depois dessa desilusão, nunca duvidou da própria capacidade de se encantar novamente pela vida? E quem nunca fugiu por medo de sofrer de novo?
É assim que está Carl no início do filme: solitário, entediado, fugindo de qualquer novidade que possa modificar sua rotina. Preso no passado ele resiste em seguir adiante.
Ao participar de uma palestra de auto ajuda que tem como objetivo estimular as pessoas a dizerem "sim", Carl se propõe a responder afirmativamente diante de qualquer proposta que lhe for feita. Daí em diante, ele inicia uma série de novas experiências que acabam lhe mostrando um jeito completamente diferente de viver a vida.
Mas o que o faz mudar radicalmente?
Medo. Medo de morrer sozinho.
Muitas vezes nos encontramos acomodados em situações que estão muito aquém dos nossos limites e que nos oferecem muito pouco, apenas por medo de experimentar aquela sensação ruim que acompanhou os nossos momentos de decepção.
Porém, da mesma forma que o medo paralisa, ele movimenta.
No texto "A Planície e o Abismo" de Rubem Alves o viajante deve subir a montanha para, enfrentando o abismo e seus desafios, lembrar-se de que a vida não é apenas como a planície: confortável e linear. Harold Crick, no filme "Mais estranho que a ficção", consegue romper com a sua vida milimetricamente planejada apenas quando descobre que, como personagem de um livro, pode morrer se a autora do texto assim desejar.
Parece que a morte nos presta esse serviço. Por mais temida que seja, ela está lá como o abismo a nos lembrar da finitude. Por mais dramático que pareça, apenas essa lembrança nos faz valorizar o que passa batido quando estamos imersos na rotina do dia a dia.
Carl, ao dizer sim para tudo, saca quantas possibilidades existem na vida e que, por comodismo ou medo, perdemos uma boa parcela delas a cada dia.
Precisa forçar um pouquinho para vencer o medo?
Precisa.
Diante de um padrão é assim: o organismo acostumado sofre para mudar e resiste buscando voltar à posição anterior. Mas logo em seguida ele pode experimentar o reforço de um novo comportamento e se adaptar. Assim como no filme, um pequeno empurrão pode iniciar um movimento que se auto alimentará e quando nos dermos conta... já aprendemos a viver de uma outra forma.
Por isso esse post é dedicado aos que têm medo da vida, mas que, bem lá no fundo, sentem muito mais medo é da morte. Ainda bem!
17 de fev. de 2009
O Leitor
Horas antes de assistir ao filme presenciei uma discussão entre duas pessoas sobre qual seria o tema central de O Leitor. Enquanto um dizia que o filme falava sobre uma história de amor não superada o outro falava das injustiças que podem ser cometidas dentro do sistema judiciário.
O Leitor mostra como o coletivo e o privado se misturam a partir das nossas atitudes. Através da vida de Hanna e Michael observamos o que as nossas escolhas podem causar.
Poucas vezes paramos para pensar como somos responsáveis pelo coletivo.
No post anterior, falei sobre como a soma das nossas atitudes cria o mercado financeiro do qual falamos tão mal. Em O Leitor, assistimos ao julgamento de seis mulheres que, como guardas da SS, colaboraram para a morte de centenas de mulheres. Elas seriam sim culpadas, mas e todo o resto da população alemã que também tinha consciência da existência desses campos? Seriam também culpados?
Para mim, O Leitor fala de responsabilidade.
Poucas vezes paramos para pensar como somos responsáveis pelas pessoas que nos rodeiam.
Hanna, presa em suas dificuldades, não imaginaria o que poderia estar causando na vida de Michael. Michael, quando decide não se colocar diante do julgamento, não imaginaria que estaria sendo cúmplice da morte de Hanna.
O filme me lembra "Desejo e Reparação", quando podemos encarar de frente o que uma atitude egoísta e infantil pode gerar.
Em O Leitor, podemos acompanhar vidas que são perdidas pela dificuldade de se compartilhar uma dor, pela falta de treino em olhar e se colocar no lugar do outro, pela inabilidade de se relacionar, pela incapacidade de amar.
Por que ficamos tão passivos diante de nossas próprias vidas? Talvez porque não conseguimos compreender as reais consequências dessa atitude.
Jung dizia que quando conscientes poderíamos experimentar dolorosas consequências se não nos posicionássemos diante de uma situação. Se somos conscientes, somos cúmplices.
O Leitor nos ensina que estamos ligados dentro de um sistema maior e que, dificilmente, podemos pensar apenas em nós mesmos.
9 de dez. de 2008
Vicky Cristina Barcelona
Woody Allen surpreende. Vicky Cristina é um filme maravilhoso que nos mostra, através de muito humor, as alegrias, dores, confusões e conflitos presentes no relacionamento humano. Quatro mulheres e quatro homens preenchem o espaço de um enredo que mostra muito, ou quase tudo, dos modelos da nossa época.
Vicky e Cristina fazem um perfeito par de opostos: enquanto a primeira se mostra racionalmente madura, rígida e decidida, enxergamos em Cristina uma mulher imatura e angustiada na busca do "algo mais" que nem ela mesma sabe o que é. Vicky é a mulher que vê no sentimento um obstáculo a ser vencido, já Cristina é o estereótipo da adolescente tardia, buscando uma emoção que dê sentido à sua vida.
Juan, um brilhante sedutor, busca através do seu discurso honesto e da sua pose de artista incompreendido, conseguir o que quer: companhia e inspiração feminina.
Juan é o homem que saca facilmente o inconsciente de uma mulher, arrancando-lhe rapidamente suas mais obscuras fantasias. Para a aparentemente romântica ele usa de praticidade. Para a mocinha fria e contida ele usa a mais piegas das atuações românticas. Consegue assim desestruturar toda a vida planejada de Vicky, enquanto se sente muito especial ao lado da "sem talentos" Cristina.
Maria Elena, sua ex mulher, artista enlouquecida e suicida, aparece no meio do filme e encontra em Cristina o fator que faltava na sua relação "quase" perfeita com Juan. Esses três viverão um triângulo amoroso enquanto Vicky amargura uma paixão sufocada pelo casamento modelo.
No desenrolar da trama observamos mulheres insatisfeitas com a própria vida, angustiadas com a sua condição, e enlouquecidas por relações de uso. Todas elas se encontram presas a idéias de como as coisas deveriam ser, mas estão longe de conseguir lidar com o próprio sentimento. Vicky está no casamento padrão, escolhido pela praticidade e convenção, Cristina, quer usufruir de toda a experiência que Juan e Maria Elena podem passar, Judy não quer abrir mão do conforto e segurança que possui ao lado do marido e Maria Elena sofre. Sofre por ser uma mulher sensível que percebe o uso que o ex marido faz dela, roubando-lhe o talento e a inspiração.
E os homens? Os homens vivem como querem viver. Mais objetivos e diretos, sabem o que querem e buscam exatamente isso. Mesmo de uma forma perversa como Juan ou às custas de muita negação, como fazem Mark e Doug, seguem da forma como planejaram.
E no fim, algo é compreendido ou transformado? Parece que não. Juan e Maria Elena são deixados entre os seus conflitos conhecidos. Vicky segue com o marido para a sua casa perfeita e sua vida padrão. E Cristina? Cristina vai embora da mesma forma que chegou, buscando algo que não sabe o que é, mas que ao menos já sabe o que não é.
Quem saiu perdendo foi o sentimento.
