1 de dez. de 2008

Siga o seu coração

 

"Siga o seu coração" é um conselho presente em quase todas as culturas. Parece senso comum o fato de termos uma cabeça e um coração que normalmente nos dizem coisas diferentes em relação ao mundo.

Observamos duas tendências: a primeira é aquela que associa o coração a escolhas estúpidas: "não perca a cabeça!", "pense bem!". A segunda é a tendência oposta, a de super valorizar o que sentimos, como se o sentimento fosse um guia mais poderoso para as escolhas e é aqui onde ouvimos: "siga o seu coração"!

Durante seus estudos e observação das pessoas, Jung conseguiu perceber quatro formas de compreender a realidade, as quatro funções que a consciência possui para compreender o mundo e a si mesmo. São elas: a sensação, o pensamento, o sentimento e a intuição. A sensação é a função que nos diz que algo existe; o pensamento nos explica o que esse objeto é. Já o sentimento nos diz se algo é bom ou ruim e a intuição nos auxilia a compreender de onde esse objeto veio, e para onde ele vai, ou seja, o seu percurso.

Nessa compreensão, tanto cabeça quanto coração seriam duas funções da consciência, ambas extremamente importantes.

Utilizar apenas uma das funções resulta numa compreensão limitada das coisas. Quando fazemos isso observamos o mundo e a nós mesmos apenas em um dos seus aspectos, acreditando que a realidade é de um jeito quando na verdade estamos perdendo uma grande parte do seu significado.

A supervalorização do sentimento acontece para compensar uma cultura que hiper valoriza o pensamento. Somos todos muito estimulados desde cedo a discriminar e explicar as coisas, deixando de compreender o valor que elas possuem para nós.

Seguir o coração é utilizar essa função para perceber a atração ou repulsa que sentimos por determinadas situações e compreender que esses sentimentos conseguem nos auxiliar a compreender a realidade como um todo. Nesse sentido, é extremamente importante ouvir o coração. A função sentimento é parte do nosso organismo assim como respirar, digerir ou transpirar. Ignorar o sentimento não significa que ele deixa de existir, apenas o relegamos ao inconsciente fazendo com que ele se manifeste de outras formas, como sintomas corporais por exemplo.

Trazer essa função para a consciência é utilizá-la no que ela tem de melhor: só o sentimento nos permite reconhecer os nossos valores e portanto, compreender quem somos e o que buscamos.

Ouvir o coração é muito importante, mas também procure observar, explicar e tentar compreender para onde cada situação caminhará. Só assim podemos chegar mais próximos de todos os lados de uma mesma questão.

Flávia Scavone

2 comentários:

Unknown disse...

A Bíblia, aconselhando sobre o erro de confiar apenas em emoções diz "o coração é traiçoeiro e está desesperado. Quem o pode conhecer?" Confiaria no conselho de alguém traiçoeiro e desesperado? Traiçoeiro pq nos pega de surpresa e as vezes nem entendemos pq queremos ou não certas coisas cegamente. E desesperado, pq nos impele a conseguir o que o corpo deseja.
Excelente comentário, Dra. O coração deve ser ouvido em certos momentos, que a dra descreveu muito apropriadamente, mas deve ser calado em outros, dominados pela mente que analisa e prevê as conseguências de se fazer apenas o que o coração quer. Parabéns. É a primeira vez, depois da Bíblia, que li um comentário sensato sobre o coração. Abraços.

Flávia Scavone disse...

Raquel,
conflito é quando não conseguimos atender a todas as vozes que nos habitam. O importante é ouvirmos todo mundo aqui dentro, digo dentro da psique, da alma!Para uma pessoa ser feliz ela terá que dar um jeitinho para acomodar todo mundo. Precisamos nos preparar para grandes negociações!
um beijo